domingo, 29 de novembro de 2015

Peter Pan, de James Barrie: leitura para pais e filhos - Editora Zahar

Peter Pan, de James Barrie: leitura para pais e filhos - Editora ZaharPeter Pan, a obra infantojuvenil de James Barrie, é um presente aos amantes da fantasia. Escrita com profunda sensibilidade e um senso estético apurado, a narrativa desperta o interesse, não apenas de crianças e adolescentes, mas de adultos também. Na Inglaterra, a família Darling adotou a cadela Naná para ser babá de seus três filhos, Wendy, João e Miguel. Certo dia, as crianças, que já haviam comentado com a mãe sobre a Terra do Nunca, falam de Peter Pan, um dos meninos que vivem naquele local. Em uma noite, ao dormir sentada no quarto das  crianças, a senhora Darling acordou assustada e viu Peter Pan entrando pela janela, acompanhado da fada Sininho.

A um grito da Senhora Darling, Naná entra na peça e o menino foge pela janela, mas a cachorra segura sua sombra entre os dentes, guardando-a, dobrada, dentro de uma gaveta para que seu dono venha buscá-la. Numa noite em que o casal tinha saído, Peter Pan e Sininho entram no quarto das crianças à procura da sombra. Encontram-na mas Peter Pan não consegue colá-la e começa a chorar. Wendy acorda e ajuda-o, costurando a sombra de volta ao seu corpo. Os dois conversam e Peter Pan revela que passa a maior parte do tempo com os meninos perdidos na Terra do Nunca, dos quais ele é o chefe. Explica que eles são meninos que caem dos carrinhos e, como não são reclamados em sete dias, vão para a Terra do Nunca. Ele convence Wendy a ir com ele contar histórias aos meninos perdidos, levando seus irmãos, e ensina a todos a voar. Naná, que tinha farejado o quarto das crianças com desconfiança, avisa aos pais que algo estranho está acontecendo lá. 

De volta ao lar, o casal vê quatro figurinhas flutuando no quarto, mas quando eles chegam as crianças já estão voando lá fora. Enquanto Peter Pan e os meninos voavam, sua aproximação começou a ser sentida na Terra do Nunca, onde tudo costumava ficar muito tranquilo quando ele não estava. Aos poucos a ilha começou a acordar e os meninos perdidos procuravam Peter, os piratas procuravam os meninos perdidos, os índios procuravam os piratas e as feras procuravam os índios. Capitão Gancho procura especialmente por Peter Pan, que um dia em uma briga decepou-lhe a mão direita, atirando-a a um jacaré que passava. A partir daquele dia, o jacaré o persegue por todos os lugares para comê-lo, podendo ser identificado a uma certa distância pelo tic-tac do relógio que engoliu junto com a mão; enquanto o relógio tiver corda fará aquele ruído e será como um aviso para o Capitão Gancho ter tempo de fugir. 

Na Terra do Nunca, os personagens vivem inúmeras aventuras. É um lugar em que as crianças jamais se tornarão adultos, e os meninos que lá vivem, acreditam que não vale a pena voltar para casa, que as mães não esperam por eles. Mas Wendy contesta, dizendo que sua mãe deixou a janela aberta para que ela e os irmãos voltem. No entanto, sente-se insegura, com vontade de retornar ao lar. Eis a grande decisão que as crianças precisam tomar: voltar para casa e correr o risco de encontrar a janela fechada, ou continuar na Terra do Nunca sem jamais crescer. A obra trata, de forma lúdica, das angústias e inseguranças pelas quais todos passamos ao crescer. Recomendo o livro, sobretudo para pais que queiram fazer uma boa leitura junto com os filhos.

Peter Pan, de James Barrie: leitura para pais e filhos - Editora Zahar

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Reze pelas mulheres roubadas, de Jennifer Clement - Editora Rocco

Reze pelas mulheres roubadas, de Jennifer Clement - Editora RoccoEm uma aldeia nas montanhas, no estado de Guerrero, México, vive a pequena Ladydi Garcia Martínez e sua mãe. A miníscula aldeia é composta basicamente de mulheres, crianças e escorpiões. Os homens vão todos deixando a aldeia em busca de uma vida melhor para suas famílias, e geralmente atravessam a fronteira com os Estado Unidos atrás de trabalho. Costumam enviar dinheiro para as esposas no início, mas por fim, muitos deles acabam sumindo de vez e constituindo nova família nos Estados Unidos. Então, as mulheres acabam tendo que lutar pela sobrevivência sozinhas. 

Muito triste, não? Mas isso não é o pior! Essas mulheres precisam proteger as suas jovens filhas dos narcotraficantes que roubam as meninas para transformá-las em escravas sexuais. Dificilmente uma menina roubada retornará para casa, pois quando o seu dono cansar dela, sempre poderá vendê-la para outro narcotraficante e, dessa forma, a mesma mulher pode ser vendida muitas vezes.

As mulheres da aldeia criam as meninas como se fossem meninos, até certa idade, e quando não dá mais para esconder a natureza feminina das jovens, elas começam a ser enfeiadas, quanto mais feias forem, melhor, pois serão menores as chances de serem roubadas. Além disso, as mães fazem buracos no chão para esconderem as suas filhas assim que percebem a presença dos raptores. As meninas precisam ficar, por vezes, horas a fio escondidas em um buraco, na presença de escorpiões, para fugir do triste destino de tornar-se uma das tantas mulheres roubadas. 

Paula, uma das melhores amigas de Ladydi, é a menina mais bonita da aldeia, e não consegue tornar-se feia, apesar dos esforços de sua mãe, e um dia é levada. Entretanto, a menina consegue fugir e volta para casa depois de um ano. Obviamente, a jovem já não é mais a mesma, traz consigo marcas da experiência vivida. Uma dessas marcas é uma tatuagem em que se lê "garota do canibal", além de algumas queimaduras de cigarros. Paula em, estado de choque, chega a relatar alguns fatos ocorridos durante o seu cativeiro, mas depois de algum tempo, ela e sua mãe fogem da aldeia para evitar que a menina seja levada novamente. Ladydi acaba sendo presa injustamente e, na prisão, fica sabendo de mais alguns detalhes sobre o infortúnio de Paula.

Claro, trata-se de uma narrativa ficcional, mas o mais chocante é que essa ficção foi elaborada a partir de entrevistas feitas pela autora, durante mais de dez anos, com mulheres que vivem nas regiões mais violentas do México, e que passam por situações semelhantes. Apesar de abordar um tema tão pesado, Jennifer Clement brinda-nos com uma obra de leitura agradável, conseguindo, por vezes, mostrar o lado cômico de algumas situações, sem deixar de tratar o tema com seriedade. O livro é muito bem escrito e, na minha opinião, um de seus principais méritos consiste em trazer a público uma situação que, apesar de  extremamente séria, é desconhecida por muitos.

Reze pelas mulheres roubadas, de Jennifer Clement - Editora Rocco

domingo, 22 de novembro de 2015

Aguapés, romance de Jhumpa Lahiri - Editora Globo

Aguapés, romance de Jhumpa Lahiri - Editora Globo
Jhumpa Lahiri, ou se preferirmos chamá-la pelo seu nome verdadeiro, Nilanjana Sudeshna, é uma escritora de origem indiana, nascida em Londres e criada nos Estado Unidos, o que a faz considerar-se americana. Casada como o jornalista Alberto Lahiri Vourvoulias-Bush, vive na Itália com o marido e com os dois filhos. Com sua obra de estreia, Intérprete de Males, a autora ganhou o prêmio Pulitzer, em 2000. 

O romance intitulado Aguapés, publicado pelo Selo Biblioteca Azul da Editora Globo, conta-nos sobre dois irmãos da família Mitra, Subhash e Udayan, nascidos e criados em Calcutá, na Índia. Companheiros inseparáveis na infância, ao tornarem-se adultos, seguem caminhos distintos. Udayan envolve-se com um movimento que pretende a libertação do povo, que teve seu início na década de 1960 e  constitui-se em um conflito armado entre o governo indiano e o grupo maoísta conhecido como naxalita. O jovem torna-se terrorista e perseguido pela polícia. Subhash, ao contrário, segue para os Estados Unidos para fazer o seu doutorado, e de lá só retornará em visita, em situações bem específicas. Constrói sua vida na América, termina o doutorado, faz pós-doutorado e segue carreira acadêmica.

Aguapés, romance de Jhumpa Lahiri - Editora Globo

Ao despedirem-se, os dois irmão não sabem que o destino os separará para sempre, que nunca mais se verão. Assim como não sabem que, esse mesmo destino que os separará, ligará os dois para sempre através de uma mulher e de uma criança. A mulher é a jovem Gauri, estudante de Filosofia, uma intelectual dotada de grande inteligência, que carrega em seu ventre a filha de Udayan, Bela. Uma mulher que carrega consigo uma culpa que a assombra. Uma mulher que, apesar de grávida, não foi feita para a maternidade. 

Entre tantos encontros e desencontros, os personagens vivenciarão situações de dor, de abandono, de rejeição, mas também de amor, de lealdade e de dedicação. É uma obra primorosa, lindamente escrita, que explora com maestria o humano em sua essência. Mais que recomendo Aguapés, de Jhumpa Lahiri.

Aguapés, romance de Jhumpa Lahiri - Editora Globo

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A senhora Beate e seu filho, de Arthur Schnitzler: entre o amor materno e o incesto - Editora L&PM

A senhora Beate e seu filho, de Arthur Schnitzler: entre o amor materno e o incesto - Editora L&PM
O incesto é um tema que, ao mesmo tempo em que causa horror, provoca interesse, o que pode ser facilmente confirmado se pensarmos na curiosidade que despertam as obras que tratam do assunto. Algumas se ocupam de relações incestuosas entre mãe e filho, como a tragédia grega Édipo Rei, de Sófocles; outras narram relacionamentos proibidos entre irmãos, como Os Maias, de Eça de Queirós, história na qual dois jovens que desconheciam o parentesco que os unia tornam-se amantes, mantendo o relacionamento após a descoberta dos laços consanguíneos; ou, ainda, a obra de Helder Macedo, intitulada Pedro e Paula, na qual um rapaz sofre o tormento de um desejo reprimido por sua irmã, o que termina por levá-lo a cometer o estupro. A obra A senhora Beate e seu filho, do escritor austríaco Arthur Schnitzler, é um caso em que há desejos incestuosos, mas estes se dão em um nível inconsciente, mascarados de zelo materno. São sentimentos inconscientes de incesto de uma mãe em relação ao filho. 

Após a morte do marido, Beate viveu durante alguns anos sem nenhum envolvimento emocional, dedicando-se somente ao filho, o jovem Hugo. Apesar desse isolamento, podemos perceber, através de certas pistas que vão sendo deixadas pelo caminho, que se trata de uma mulher com uma sexualidade bastante intensa. Os instintos reprimidos de Beate são como animais selvagens que não se deixam aprisionar por muito tempo e ela, aos poucos, começa a tomar conhecimento de que seus desejos ainda existem. Em alguns momentos a viúva respeitável se vê em meio a certos jogos de sedução que, aos poucos, lhe vão revelando que já não poderá mais ignorar sua própria natureza. Nessa luta entre a própria animalidade e o amor materno, entre natureza e civilidade, a protagonista encontra em Fortunata, mulher de reputação suspeita, a imagem de tudo o que ela tenta negar em si mesma e, então, resolve “proteger” o filho de uma mulher tão inadequada. Dentre as possíveis explicações de estudiosos para a aversão ao incesto está a de que, ao abrir mão de filhos e irmãos, afirma-se a possibilidade de relação com todas as outras pessoas com as quais não se tem laços de consanguinidade e, de uma forma inconsciente, Beate parece “ceder” Hugo a Fortunata a partir do momento em que inicia o seu relacionamento com o jovem Fritz Weber e deixa o filho mais livre.

O livro é fortemente marcado por um sentimento de perda da juventude e pelo sonho de retorno a ela. Beate percebeu que o seu lugar era junto aos mais velhos, mas entristeceu-se com isso. Em uma passagem mais adiante, há uma associação do crepúsculo com o envelhecimento e um sentimento de melancolia por isso, ao mesmo tempo em que a protagonista sente falta do filho, que representa a juventude perdida. Certamente, relacionado a esse desejo de retorno à juventude, Beate deseja que Hugo volte a ser como antes, quando os dois compartilhavam segredos e tinham profunda intimidade. Entretanto, o desejo de retorno à origem mais forte em Beate é a vontade inconsciente no sentido de regressar a um estado mais instintivo, do qual ela se afastara para poder ocupar o seu lugar de viúva séria e mãe dedicada na sociedade.

Há em Beate, no decorrer da narrativa, uma transformação e uma tomada de consciência sobre si mesma e sobre os próprios instintos que ficam muito evidentes no terceiro capítulo, em que acontece o desfecho. Ao iniciar o capítulo, o narrador deixa evidente que a protagonista passou de um estado de absoluta treva para a claridade: “quando Beate saiu da escuridão da sombra da floresta, aparecendo a céu aberto, o caminho de saibro estendeu-se a seus pés, ensolaradamente branco e ardente (…)” Esse é o momento em que Beate retorna para casa de um passeio. Ela está prestes a descobrir que cometeu um erro confiando no jovem Fritz, que não saberá guardar segredo sobre o caso amoroso dos dois. Beate, finalmente percebe que não há tanta diferença entre ela e Fortunata, já que sua conduta não condiz com a posição de mulher honrada que ela ocupa na sociedade em que vive. No desespero de ser descoberta pelo filho em sua aventura amorosa com Fritz, Beate começa a conceber um plano que desencadeará o desfecho da obra. 

Apesar de abordar um tema pesado, a obra é belíssima, profunda e rica em significados. É um livro pequeno, leitura para um dia, no máximo dois. Excelente para quem gosta de um bom drama psicológico.

A senhora Beate e seu filho, de Arthur Schnitzler: entre o amor materno e o incesto - Editora L&PM

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A Teoria do Romance, de Georg Lukács - Editora 34

A Teoria do Romance, de Georg Lukács - Editora 34
O nosso objetivo hoje é comentar, breve e resumidamente, o livro A teoria do romance, de Georg Lukács. Não se trata de uma análise aprofundada, mas de um texto que visa apenas dar ao leitor uma visão geral e rápida sobre a obra de desse autor. Sabemos que nem todos apreciam uma leitura mais teórica, porém, como a proposta do blog é compartilhar leituras, entendemos que todos os interesses devem ser contemplados. 

Ao iniciar a sua obra, Lukács fala-nos de um tempo em que não havia filosofia, pois todas as explicações eram encontradas nos mitos. Segundo o autor, esse era um tempo sem dúvidas, portanto, sem necessidade de respostas, era a “infância” da humanidade. Esse é o contexto em que surge a epopeia, gênero que reflete plenamente a forma de pensar e de sentir do homem da época. Assim, o mundo grego nos é apresentado de forma homogênea e fechada. Em outras palavras, é perfeito e, portanto, estático, ao contrário do nosso mundo atual que, cada vez mais vasto e rico, perdeu em totalidade o que ganhou em abrangência. Essa é a razão pela qual Lukács afirma a impossibilidade de produzirem-se epopeias nos dias atuais, pois o homem grego vivia no equilíbrio de uma estrutura fechada, que se relaciona com o gênero épico, enquanto o homem atual rompe com essa harmonia e o mundo passa a apresentar-se com uma estrutura incoerente. No universo grego, o homem não conhecia solidão. “Aí não há ainda nenhuma interioridade, pois ainda não há nenhum exterior, nenhuma alteridade para a alma. Ao sair em busca de aventuras e vencê-las, a alma desconhece o real tormento da procura e o real perigo da descoberta, e jamais põe a si mesma em jogo; ela ainda não sabe que pode perder-se e nunca imagina que terá de buscar-se. Essa é a era da epopeia.” O homem atual, ao contrário, é extremamente solitário.


A tragédia conseguiu permanecer intacta em sua essência, embora tenha sofrido algumas mudanças. A epopeia, por outro lado, desapareceu, dando lugar ao romance. O que difere a epopeia do romance é o fato de que este último pertence a uma época em que a totalidade da vida já não é mais evidente. A epopeia apresenta-nos uma totalidade acabada para si mesma, enquanto o romance tenta descobrir essa totalidade. Sara Sefchovich, em sua obra A teoria da literatura de Lukacs mostra-nos o autor como alguém que “vê no homem moderno arrojado fatalmente a alienação e a a fragmentação entre o interno e o externo, entre o sujeito e o objeto, o intelecto e a vida, a essência e a aparência, a forma e o conteúdo, a arte e a ciência.”


A forma romanesca contrapõe-se à infantilidade normativa da epopeia, mostrando uma força amadurecida. O romance compõe-se por uma fusão paradoxal de fatores heterogêneos e descontínuos, tendo sua coerência alcançada por meio da forma. “A mediação entre literatura e vida se faz pela harmonização dos contrários, a unidade do todo superando a contradição das partes ou elementos.”, segundo Maria da Glória Bordini no livro Lukács e a literatura. Enquanto os outros gêneros literários possuem uma forma acabada, no romance, ela é um processo. 


Se a epopeia mostra o homem em perfeita harmonia com seu universo fechado, o romance indica o rompimento dessa consonância. É a ruptura entre o sujeito e seu mundo, o momento em que a totalidade deve ser buscada, em meio a um ambiente fragmentado. Para  Lukács “A epopeia dá forma a uma totalidade de vida fechada a partir de si mesma, o romance busca descobrir e construir, pela forma, a totalidade oculta da vida.” Assim, o romance é a expressão literária do rompimento da unidade, e ao mesmo tempo é um meio que serve para desvelar e edificar a totalidade oculta da vida.


Lukács destaca quatro momentos nesse gênero. No primeiro, o herói é um visionário que se sente menor que o mundo, solitário. Isso acontece em razão de uma inadequação entre a alma e a obra literária, entre interioridade e aventura. Observa-se assim, um caráter degradado do herói problemático, que mostra uma inaptidão que impede a realização do ideal. A isso Lukács chama de idealismo abstrato, e cita como exemplo a obra D. Quixote, de Cervantes. 


Um segundo momento seria o que o autor denomina romantismo da desilusão, no qual o herói é apresentado como um ser desajustado, em conflito com o mundo. Nesse caso, há uma tendência, por parte do indivíduo, de buscar uma fuga das questões conflituosas e das lutas exteriores. Werther, de Goethe, é o exemplo apresentado por Lukács.


Há, ainda, o que o autor chama de anos de aprendizado. Nesse caso, o herói sofre, entretanto, aprende com as experiências da vida e, por isso, consegue realizar algo de positivo. Lukács chama a esse terceiro tipo, de romance de educação. O indivíduo situa-se entre os dois tipos apresentados anteriormente, abordando a reconciliação do homem problemático com a realidade concreta e social. A Montanha Mágica, de Thomas Mann, serve como exemplo para esse tipo de romance.


No quarto tipo, Lukács cita o russo Tolstoi como sendo o representante maior da epopeia moderna. Essa é a literatura da superação das formas sociais de vida, e o herói atua sobre a sociedade para ajustar-se a ela. Mas essa superação não consegue resolver os problemas inerentes ao homem moderno. Ao contrário, acentua-os, ficando muito longe da realidade sem problemas da épica.


A Teoria do Romance não é um livro indicado para quem busca apenas uma leitura de fruição, pois trata-se de uma obra teórica e bastante densa. Mas para aqueles que anseiam por um maior conhecimento literário em nível teórico, não só recomendo, como garanto que se trata de um livro indispensável.


A Teoria do Romance, de Georg Lukács - Editora 34

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A Bolsa Amarela, texto infantil de Lygia Bojunga

 A Bolsa Amarela, texto infantil de Lygia BojungaRaquel é a caçula e única criança na sua família, tendo uma diferença de dez anos em relação aos irmãos. Estes não lhe dão atenção, por acharem que criança “não sabe coisa alguma”. A menina, sentindo-se profundamente solitária e incompreendida, começa a escrever para seus amigos imaginários. Certo dia, ganhou uma bolsa amarela, que veio em um pacote enviado por tia Brunilda. Desde então, a bolsa passou a ser o seu “esconderijo”. Cabia tudo lá dentro, suas invenções, vontades e fantasias. A bolsa amarela, na imaginação da menina, abrigava dois galos, um guarda-chuva-mulher, um alfinete de segurança (todos falantes) e muitos pensamentos e histórias inventadas pela narradora.

Em A Bolsa Amarela, Lygia Bojunga apresenta-nos uma menina vivendo seus conflitos interiores. Ao iniciar o livro, a jovem narradora fala de suas três grandes vontades: crescer, ser menino e escrever. Mas elas não são quaisquer vontades, são daquele tipo que devem ser escondidas, daquelas que não devemos deixar “engordar”. Raquel experimenta o sentimento de inferioridade de quem não pode se expressar como gostaria somente por ter nascido mulher, ou por ainda ser criança. Como não possui maturidade suficiente para processar isso de forma racional, sente vontade de ter nascido homem. A jovem gostaria de ser um menino porque acredita que só os indivíduos do sexo masculino podem fazer tudo o que quiserem, como soltar pipa, por exemplo. Além disso, a menina desejava crescer logo porque “gente grande tá sempre achando que criança tá por fora” (p.26). E o seu terceiro desejo, o de escrever, é a forma encontrada pela garota para organizar o seu caos interior. 


O elemento que serve de título à obra, uma bolsa amarela, representa um dos principais espaços, junto com o quintal da casa onde a menina morou e do qual sente falta,  e a oficina de consertos, uma espécie de Eldorado, onde tudo funciona com perfeição e onde vive  Lorelai (mais uma amiga imaginária). A bolsa amarela é o local onde a menina guarda suas vontades secretas, alguns amigos imaginários e onde vai, aos poucos organizando o seu mundo interior, ou seja, é um espaço psicológico. Em sua infância solitária, a criança substituiu o quintal pelo interior da bolsa. 


A casa dos consertos constitui-se em um espaço imaginário extremamente importante por ser o local onde a menina faz suas grandes descobertas: ser criança é bom, ser menina é bom, os adultos não são maus, não existem tarefas para homens e tarefas para mulheres. Além disso, é um lugar onde se “descosturam” as ideias aprisionadas, como no caso do cão que mordia a todos porque não conseguia pensar em outra coisa. 


Ao lermos A bolsa amarela, logo percebemos que não se trata de um daqueles livros, como muitos do passado e alguns da atualidade, que servem como pretexto para “doutrinar” a criança, mas, ao contrário, valoriza seus problemas, suas dúvidas e a encoraja a pensar por si própria. O galo Rei, amigo imaginário de Raquel, que logo passou a ser chamado de Afonso, representa aquele que resiste à tirania do senso comum, é a iniciação da criança a uma forma questionadora de pensar. Como acontece com os “diferentes”, o galo é perseguido. Mas isso não representa uma “mensagem” negativa para as crianças, ao contrário, elas são incentivadas a serem verdadeiras, como Afonso o é, e como Raquel busca se tornar.


Raquel é a grande heroína da história, consegue resolver seus problemas por si própria, sem a interferência de adultos. Torna-se mais confiante, mais amadurecida e, ao libertar-se de seus “pensamentos costurados”, pode, enfim, deixar partir os amigos imaginários, passando a carregar menos peso e a gozar de uma existência mais leve.


 A Bolsa Amarela, texto infantil de Lygia Bojunga

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A montanha mágica, de Thomas Mann - Editora Nova Fronteira

A montanha mágica, de Thomas Mann - Editora Nova Fronteira
Para ler A montanha Mágica é preciso fôlego de alpinista. 

A Montanha mágica, de Thomas Mann, que narra a história de Hans Castorp, não é propriamente um livro de fácil leitura, pois além de suas 986 páginas, possui um viés bastante filosófico, exigindo um pouco mais do seu leitor. No entanto, da mesma forma que, quando escalamos uma montanha, ao chegarmos no topo, recebemos a recompensa pelo sacrifício da subida, ao concluirmos a leitura desta obra, conseguimos nos sentir plenamente recompensados. 

Hans Castorp é, nas palavras do narrador, um jovem “singelo” que vai de Hamburgo, sua terra natal, ao sanatório de Berghof, na aldeia suíça de Davos-Platz, para visitar o primo Joachim, que se encontra enfermo. A intenção do protagonista é de passar apenas três semanas em companhia do parente, entretanto, ao aproximar-se o final do prazo, o rapaz descobre que também está doente e precisará permanecer internado no sanatório, onde ficará por sete longos anos.

Ao observarmos a estrutura de A montanha mágica percebemos que ela exibe, em sua forma, um espelho da sociedade e do homem atual. O protagonista Hans Castorp representa o indivíduo que vive em um mundo dilacerado, tentando encontrar um sentido para a vida. A obra pode ser entendida como a metáfora de uma sociedade enferma, que busca um equilíbrio social e espiritual, cada vez mais distantes em razão de um progresso e de um amadurecimento intelectual que tornam o homem mais questionador e mais angustiado com as incertezas existenciais. Encontram-se no sanatório de Berghof pessoas doentes de todas as etnias e crenças, compartilhando todo tipo de problemas, infortúnios, inquietudes, amarguras, ilusões e desilusões; mostrando nesse microcosmo o retrato de um mundo aos pedaços. 


O romance divide-se em sete capítulos antecedidos por duas páginas de uma explicação do narrador sobre o “propósito” de contar a história de Hans Castorp. Nessa pequena introdução o narrador explica que a história não deve ao tempo o seu grau de antiguidade, podendo ser bem mais velha do que a sua idade. A história de Hans Castorp não representa propriamente a história de um jovem “singelo”, mas a de toda a humanidade em busca de um sentido para a vida e, assim sendo, é atemporal, ou “mais velha que seus anos”. Os capítulos são marcados numericamente e divididos em subcapítulos. O primeiro narra a chegada do jovem ao sanatório, o encontro com o Joachim e suas primeiras impressões sobre o local. O segundo capítulo é uma grande analepse que mostra a infância do protagonista, e os demais relatam a estada do jovem no sanatório, sendo que as últimas seis páginas, aproximadamente, referem-se à volta de Hans Castorp à “planície”. 


O texto é narrado em terceira pessoa. O narrador comete várias intrusões no decorrer da história, fazendo comentários e dando suas opiniões. Além disso, ele demonstra possuir conhecimento sobre os pensamentos e os sentimentos do jovem protagonista e de seu primo, até mesmo quando os dois não falam sobre isso. 

O narrador permanece com esse distanciamento durante toda a narrativa, entretanto, no final, demonstra sentimentos de afeição por Hans Castorp e, ao mencionar o gesto de levar a mão ao olho para enxugar uma lágrima ao lembrar do “jovem singelo”, apresenta-nos a possibilidade de tratar-se do escritor humanista Settembrini, um dos personagens do livro. Nesse caso, o narrador deixaria de ser alguém de fora da narrativa para tornar-se uma testemunha dos fatos narrados. 


O tempo é de extrema importância em A montanha mágica. O homem da atualidade, que já superou a idade mítica da epopeia, angustia-se profundamente com as questões relativas à passagem do tempo, pois ela representa a proximidade da morte. “Sim, o tempo é um enigma singular, difícil de resolver.” (p.195)  
O romance é narrado “quase” todo em ordem cronológica. Quando se diz “quase” é porque, excetuando o segundo capítulo, que conta a infância de Hans Castorp, há poucas analepses e nenhuma prolepse. As raras voltas ao passado acontecem quando o protagonista recorda-se de fatos de sua infância, como a ocasião em que pediu o lápis emprestado a Pribislav Hippe, ou nos momentos em que o narrador conta a vida de Settembrini ou de Naphta. Salvo essas passagens, a história inicia com a chegada do jovem Hans ao sanatório, conta todas as transformações pelas quais ele passa em sua estada por lá e termina com sua volta à planície. A obra transcorre de forma a dar-nos a impressão de uma perda da noção do tempo. 

O tempo passa lentamente, arrastando-se, fazendo com que todos os dias sejam iguais uns aos outros. Essa passagem é marcada por “chegara o solstício de verão” (p.502), ou “o ano em breve completaria o giro (…)” (p.503), ou “E certa vez experimentou uma breve, mas violente vertigem ao recordar-se de que a aquilégia estava novamente em flor e o ano se fechava sobre si mesmo” (p.532). No início, o leitor pode ir acompanhando o tempo de permanência de Hans Castorp no sanatório, mas no decorrer da narrativa isso já não é mais possível. Somente no final do romance é que tomamos conhecimento de que, afinal, o jovem esteve na montanha por sete anos. Foi possível observar que as transformações ocorridas na natureza para marcar a passagem do tempo, afetam o espaço na obra, pois uma mesma paisagem que, em determinados momentos, está florida, em outros, está coberta de neve, fazendo com que, mesmo quando não conseguimos mais saber o tempo exato de permanência do protagonista no sanatório, percebamos que os anos estão passando. 

O espaço é fundamental para marcar o que se passa no interior do personagem. Há muitas mudanças inesperadas de temperatura que remetem a um momento existencial em que não há certezas nem ordem, somente indefinições. Ou, ainda, uma paisagem primaveril no verão apontando para uma transformação que levará a um novo recomeço. Em certas passagens em que a natureza mostra-se solitária e monótona podemos perceber o jovem Hans Castorp voltando-se para sua existência interior. 

Há a passagem em que Hans Castorp, interessado por um bosque, termina por escorregar em um abismo, tendo que despender bastante energia para conseguir voltar ao alto. Essa aventura reporta-nos ao aprendizado de Hans Castorp sobre si mesmo, pois a volta para o alto, após descer ao abismo, pode ser vista como a metáfora de elementos inconscientes do personagem que são trazidos à luz da consciência. Entretanto, se os espaços naturais são importantes por mostrarem a individualidade do protagonista e sua relação consigo mesmo, o espaço do sanatório não é menos significativo, pois é justamente esse que representa a sociedade e, é através dele que podemos constatar as críticas sociais presentes na obra. É aí que Hans Castorp se relaciona com as mais variadas pessoas e entra em contato com todo tipo humano possível, com as mais diversas ideias e filosofias. É onde conhece o “pedagogo” Settembrini e onde se apaixona por Madame Chaucha. É nesse espaço que, ao mesmo tempo em que sua doença progride, o jovem torna-se mais humano, deixando de lado a vida anterior, na qual sua única preocupação era consigo próprio, passando a interessar-se por questões de natureza mais universal sobre o sentido da existência.


Assim, o jovem protagonista, que antes não conseguia enxergar além da imagem aparente das coisas, como no caso do retrato do avô, que ele tomava como se fosse a imagem real do velho, agora consegue ver a realidade tal como ela é. É dessa forma que, aos poucos Hans Castorp vai tornando-se um outro ser, na medida em que o tempo passa. 


Essa nova visão de mundo faz com que o “filho enfermiço da vida” rompa com a planície. Há um determinado momento em que percebemos que Castorp parece não fazer mais questão de voltar. Então, Joachim, seu último elo com a planície parte “em falso”, marcando de vez esse rompimento. O jovem protagonista desistiu da planície. Mas, se essa partida assinala a desistência de Hans, a visita rápida e a partida ainda mais rápida de seu tio James sinaliza o momento em que planície desistiu dele. 


Mas, afinal, em seus anos de aprendizagem, o herói entende que não é possível modificar a condição humana, mas tentar se adaptar a ela de forma positiva e construtiva. Após sete anos, e após comer por aproximadamente um ano em cada uma das sete mesas do refeitório, fechando um ciclo e mais um círculo do movimento existencial de Hans Castorp, o filho enfermiço está pronto para voltar, finalmente, à planície e à vida. 



A montanha mágica, de Thomas Mann - Editora Nova Fronteira