quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A Bolsa Amarela, texto infantil de Lygia Bojunga

 A Bolsa Amarela, texto infantil de Lygia BojungaRaquel é a caçula e única criança na sua família, tendo uma diferença de dez anos em relação aos irmãos. Estes não lhe dão atenção, por acharem que criança “não sabe coisa alguma”. A menina, sentindo-se profundamente solitária e incompreendida, começa a escrever para seus amigos imaginários. Certo dia, ganhou uma bolsa amarela, que veio em um pacote enviado por tia Brunilda. Desde então, a bolsa passou a ser o seu “esconderijo”. Cabia tudo lá dentro, suas invenções, vontades e fantasias. A bolsa amarela, na imaginação da menina, abrigava dois galos, um guarda-chuva-mulher, um alfinete de segurança (todos falantes) e muitos pensamentos e histórias inventadas pela narradora.

Em A Bolsa Amarela, Lygia Bojunga apresenta-nos uma menina vivendo seus conflitos interiores. Ao iniciar o livro, a jovem narradora fala de suas três grandes vontades: crescer, ser menino e escrever. Mas elas não são quaisquer vontades, são daquele tipo que devem ser escondidas, daquelas que não devemos deixar “engordar”. Raquel experimenta o sentimento de inferioridade de quem não pode se expressar como gostaria somente por ter nascido mulher, ou por ainda ser criança. Como não possui maturidade suficiente para processar isso de forma racional, sente vontade de ter nascido homem. A jovem gostaria de ser um menino porque acredita que só os indivíduos do sexo masculino podem fazer tudo o que quiserem, como soltar pipa, por exemplo. Além disso, a menina desejava crescer logo porque “gente grande tá sempre achando que criança tá por fora” (p.26). E o seu terceiro desejo, o de escrever, é a forma encontrada pela garota para organizar o seu caos interior. 


O elemento que serve de título à obra, uma bolsa amarela, representa um dos principais espaços, junto com o quintal da casa onde a menina morou e do qual sente falta,  e a oficina de consertos, uma espécie de Eldorado, onde tudo funciona com perfeição e onde vive  Lorelai (mais uma amiga imaginária). A bolsa amarela é o local onde a menina guarda suas vontades secretas, alguns amigos imaginários e onde vai, aos poucos organizando o seu mundo interior, ou seja, é um espaço psicológico. Em sua infância solitária, a criança substituiu o quintal pelo interior da bolsa. 


A casa dos consertos constitui-se em um espaço imaginário extremamente importante por ser o local onde a menina faz suas grandes descobertas: ser criança é bom, ser menina é bom, os adultos não são maus, não existem tarefas para homens e tarefas para mulheres. Além disso, é um lugar onde se “descosturam” as ideias aprisionadas, como no caso do cão que mordia a todos porque não conseguia pensar em outra coisa. 


Ao lermos A bolsa amarela, logo percebemos que não se trata de um daqueles livros, como muitos do passado e alguns da atualidade, que servem como pretexto para “doutrinar” a criança, mas, ao contrário, valoriza seus problemas, suas dúvidas e a encoraja a pensar por si própria. O galo Rei, amigo imaginário de Raquel, que logo passou a ser chamado de Afonso, representa aquele que resiste à tirania do senso comum, é a iniciação da criança a uma forma questionadora de pensar. Como acontece com os “diferentes”, o galo é perseguido. Mas isso não representa uma “mensagem” negativa para as crianças, ao contrário, elas são incentivadas a serem verdadeiras, como Afonso o é, e como Raquel busca se tornar.


Raquel é a grande heroína da história, consegue resolver seus problemas por si própria, sem a interferência de adultos. Torna-se mais confiante, mais amadurecida e, ao libertar-se de seus “pensamentos costurados”, pode, enfim, deixar partir os amigos imaginários, passando a carregar menos peso e a gozar de uma existência mais leve.


 A Bolsa Amarela, texto infantil de Lygia Bojunga