terça-feira, 17 de novembro de 2015

A Teoria do Romance, de Georg Lukács - Editora 34

A Teoria do Romance, de Georg Lukács - Editora 34
O nosso objetivo hoje é comentar, breve e resumidamente, o livro A teoria do romance, de Georg Lukács. Não se trata de uma análise aprofundada, mas de um texto que visa apenas dar ao leitor uma visão geral e rápida sobre a obra de desse autor. Sabemos que nem todos apreciam uma leitura mais teórica, porém, como a proposta do blog é compartilhar leituras, entendemos que todos os interesses devem ser contemplados. 

Ao iniciar a sua obra, Lukács fala-nos de um tempo em que não havia filosofia, pois todas as explicações eram encontradas nos mitos. Segundo o autor, esse era um tempo sem dúvidas, portanto, sem necessidade de respostas, era a “infância” da humanidade. Esse é o contexto em que surge a epopeia, gênero que reflete plenamente a forma de pensar e de sentir do homem da época. Assim, o mundo grego nos é apresentado de forma homogênea e fechada. Em outras palavras, é perfeito e, portanto, estático, ao contrário do nosso mundo atual que, cada vez mais vasto e rico, perdeu em totalidade o que ganhou em abrangência. Essa é a razão pela qual Lukács afirma a impossibilidade de produzirem-se epopeias nos dias atuais, pois o homem grego vivia no equilíbrio de uma estrutura fechada, que se relaciona com o gênero épico, enquanto o homem atual rompe com essa harmonia e o mundo passa a apresentar-se com uma estrutura incoerente. No universo grego, o homem não conhecia solidão. “Aí não há ainda nenhuma interioridade, pois ainda não há nenhum exterior, nenhuma alteridade para a alma. Ao sair em busca de aventuras e vencê-las, a alma desconhece o real tormento da procura e o real perigo da descoberta, e jamais põe a si mesma em jogo; ela ainda não sabe que pode perder-se e nunca imagina que terá de buscar-se. Essa é a era da epopeia.” O homem atual, ao contrário, é extremamente solitário.


A tragédia conseguiu permanecer intacta em sua essência, embora tenha sofrido algumas mudanças. A epopeia, por outro lado, desapareceu, dando lugar ao romance. O que difere a epopeia do romance é o fato de que este último pertence a uma época em que a totalidade da vida já não é mais evidente. A epopeia apresenta-nos uma totalidade acabada para si mesma, enquanto o romance tenta descobrir essa totalidade. Sara Sefchovich, em sua obra A teoria da literatura de Lukacs mostra-nos o autor como alguém que “vê no homem moderno arrojado fatalmente a alienação e a a fragmentação entre o interno e o externo, entre o sujeito e o objeto, o intelecto e a vida, a essência e a aparência, a forma e o conteúdo, a arte e a ciência.”


A forma romanesca contrapõe-se à infantilidade normativa da epopeia, mostrando uma força amadurecida. O romance compõe-se por uma fusão paradoxal de fatores heterogêneos e descontínuos, tendo sua coerência alcançada por meio da forma. “A mediação entre literatura e vida se faz pela harmonização dos contrários, a unidade do todo superando a contradição das partes ou elementos.”, segundo Maria da Glória Bordini no livro Lukács e a literatura. Enquanto os outros gêneros literários possuem uma forma acabada, no romance, ela é um processo. 


Se a epopeia mostra o homem em perfeita harmonia com seu universo fechado, o romance indica o rompimento dessa consonância. É a ruptura entre o sujeito e seu mundo, o momento em que a totalidade deve ser buscada, em meio a um ambiente fragmentado. Para  Lukács “A epopeia dá forma a uma totalidade de vida fechada a partir de si mesma, o romance busca descobrir e construir, pela forma, a totalidade oculta da vida.” Assim, o romance é a expressão literária do rompimento da unidade, e ao mesmo tempo é um meio que serve para desvelar e edificar a totalidade oculta da vida.


Lukács destaca quatro momentos nesse gênero. No primeiro, o herói é um visionário que se sente menor que o mundo, solitário. Isso acontece em razão de uma inadequação entre a alma e a obra literária, entre interioridade e aventura. Observa-se assim, um caráter degradado do herói problemático, que mostra uma inaptidão que impede a realização do ideal. A isso Lukács chama de idealismo abstrato, e cita como exemplo a obra D. Quixote, de Cervantes. 


Um segundo momento seria o que o autor denomina romantismo da desilusão, no qual o herói é apresentado como um ser desajustado, em conflito com o mundo. Nesse caso, há uma tendência, por parte do indivíduo, de buscar uma fuga das questões conflituosas e das lutas exteriores. Werther, de Goethe, é o exemplo apresentado por Lukács.


Há, ainda, o que o autor chama de anos de aprendizado. Nesse caso, o herói sofre, entretanto, aprende com as experiências da vida e, por isso, consegue realizar algo de positivo. Lukács chama a esse terceiro tipo, de romance de educação. O indivíduo situa-se entre os dois tipos apresentados anteriormente, abordando a reconciliação do homem problemático com a realidade concreta e social. A Montanha Mágica, de Thomas Mann, serve como exemplo para esse tipo de romance.


No quarto tipo, Lukács cita o russo Tolstoi como sendo o representante maior da epopeia moderna. Essa é a literatura da superação das formas sociais de vida, e o herói atua sobre a sociedade para ajustar-se a ela. Mas essa superação não consegue resolver os problemas inerentes ao homem moderno. Ao contrário, acentua-os, ficando muito longe da realidade sem problemas da épica.


A Teoria do Romance não é um livro indicado para quem busca apenas uma leitura de fruição, pois trata-se de uma obra teórica e bastante densa. Mas para aqueles que anseiam por um maior conhecimento literário em nível teórico, não só recomendo, como garanto que se trata de um livro indispensável.


A Teoria do Romance, de Georg Lukács - Editora 34