quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A senhora Beate e seu filho, de Arthur Schnitzler: entre o amor materno e o incesto - Editora L&PM

A senhora Beate e seu filho, de Arthur Schnitzler: entre o amor materno e o incesto - Editora L&PM
O incesto é um tema que, ao mesmo tempo em que causa horror, provoca interesse, o que pode ser facilmente confirmado se pensarmos na curiosidade que despertam as obras que tratam do assunto. Algumas se ocupam de relações incestuosas entre mãe e filho, como a tragédia grega Édipo Rei, de Sófocles; outras narram relacionamentos proibidos entre irmãos, como Os Maias, de Eça de Queirós, história na qual dois jovens que desconheciam o parentesco que os unia tornam-se amantes, mantendo o relacionamento após a descoberta dos laços consanguíneos; ou, ainda, a obra de Helder Macedo, intitulada Pedro e Paula, na qual um rapaz sofre o tormento de um desejo reprimido por sua irmã, o que termina por levá-lo a cometer o estupro. A obra A senhora Beate e seu filho, do escritor austríaco Arthur Schnitzler, é um caso em que há desejos incestuosos, mas estes se dão em um nível inconsciente, mascarados de zelo materno. São sentimentos inconscientes de incesto de uma mãe em relação ao filho. 

Após a morte do marido, Beate viveu durante alguns anos sem nenhum envolvimento emocional, dedicando-se somente ao filho, o jovem Hugo. Apesar desse isolamento, podemos perceber, através de certas pistas que vão sendo deixadas pelo caminho, que se trata de uma mulher com uma sexualidade bastante intensa. Os instintos reprimidos de Beate são como animais selvagens que não se deixam aprisionar por muito tempo e ela, aos poucos, começa a tomar conhecimento de que seus desejos ainda existem. Em alguns momentos a viúva respeitável se vê em meio a certos jogos de sedução que, aos poucos, lhe vão revelando que já não poderá mais ignorar sua própria natureza. Nessa luta entre a própria animalidade e o amor materno, entre natureza e civilidade, a protagonista encontra em Fortunata, mulher de reputação suspeita, a imagem de tudo o que ela tenta negar em si mesma e, então, resolve “proteger” o filho de uma mulher tão inadequada. Dentre as possíveis explicações de estudiosos para a aversão ao incesto está a de que, ao abrir mão de filhos e irmãos, afirma-se a possibilidade de relação com todas as outras pessoas com as quais não se tem laços de consanguinidade e, de uma forma inconsciente, Beate parece “ceder” Hugo a Fortunata a partir do momento em que inicia o seu relacionamento com o jovem Fritz Weber e deixa o filho mais livre.

O livro é fortemente marcado por um sentimento de perda da juventude e pelo sonho de retorno a ela. Beate percebeu que o seu lugar era junto aos mais velhos, mas entristeceu-se com isso. Em uma passagem mais adiante, há uma associação do crepúsculo com o envelhecimento e um sentimento de melancolia por isso, ao mesmo tempo em que a protagonista sente falta do filho, que representa a juventude perdida. Certamente, relacionado a esse desejo de retorno à juventude, Beate deseja que Hugo volte a ser como antes, quando os dois compartilhavam segredos e tinham profunda intimidade. Entretanto, o desejo de retorno à origem mais forte em Beate é a vontade inconsciente no sentido de regressar a um estado mais instintivo, do qual ela se afastara para poder ocupar o seu lugar de viúva séria e mãe dedicada na sociedade.

Há em Beate, no decorrer da narrativa, uma transformação e uma tomada de consciência sobre si mesma e sobre os próprios instintos que ficam muito evidentes no terceiro capítulo, em que acontece o desfecho. Ao iniciar o capítulo, o narrador deixa evidente que a protagonista passou de um estado de absoluta treva para a claridade: “quando Beate saiu da escuridão da sombra da floresta, aparecendo a céu aberto, o caminho de saibro estendeu-se a seus pés, ensolaradamente branco e ardente (…)” Esse é o momento em que Beate retorna para casa de um passeio. Ela está prestes a descobrir que cometeu um erro confiando no jovem Fritz, que não saberá guardar segredo sobre o caso amoroso dos dois. Beate, finalmente percebe que não há tanta diferença entre ela e Fortunata, já que sua conduta não condiz com a posição de mulher honrada que ela ocupa na sociedade em que vive. No desespero de ser descoberta pelo filho em sua aventura amorosa com Fritz, Beate começa a conceber um plano que desencadeará o desfecho da obra. 

Apesar de abordar um tema pesado, a obra é belíssima, profunda e rica em significados. É um livro pequeno, leitura para um dia, no máximo dois. Excelente para quem gosta de um bom drama psicológico.

A senhora Beate e seu filho, de Arthur Schnitzler: entre o amor materno e o incesto - Editora L&PM