sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Dia de pagamento - crônica


Você chega em seu local de trabalho e logo percebe que algo muito estranho está acontecendo. Nos rostos uma expressão atormentada que causa um profundo mal-estar. Cada movimento, cada gesto lhe dá a sensação de que as pessoas acordaram mais pesadas do que no dia anterior. Então, num instinto natural, você verifica se não estão trabalhando acorrentados. Bobagem! Foi só uma falsa impressão. Anda alguns passos e já presencia uma abrasadora discussão por uma tolice qualquer. O ambiente gris não deixaria dúvida até mesmo ao observador mais distraído: hoje é dia de pagamento. Os colegas sequer conversam entre si, porque um inocente bom dia pode ser interpretado como um insulto. Os chefes trancam-se em seus gabinetes e de lá só saem (com escolta policial) quando todos os funcionários tiverem ido embora.

O dia de pagamento costuma ser muito perigoso. É quando coisas estranhas acontecem, como por exemplo: grampeadores e calculadoras de mesa que passam voando a um milímetro das suas orelhas, ou o café do diretor da empresa, que é secretamente “adoçado” com sal amargo. É comum, os banheiros aparecerem, misteriosamente, pichados com palavrões e desaforos àqueles que efetuam o acerto mensal.

Esse dia é responsável por um desses sintomas da vida moderna. Trata-se da tenção-pré-dia-de-pagamento. Começa a manifestar-se há mais ou menos dois dias antes de você receber o seu salário, através de depressões, dores de cabeça, indisposições sem motivo aparente e muita irritabilidade, tendo seu ponto culminante no próprio dia em questão. Existe, porém, um antídoto que alivia os incômodos dessa fase do mês. É quando aparece alguém lhe contando aquelas piadas sobre o patrão. Aliás, este é o dia em que mais surgem anedotas desse tipo, e em nenhum outro você as acha tão engraçadas.


Mas, como todas as fases, essa também passa. E depois do tempo necessário para que você, de fato, se conforme com mais alguma conta pendurada, reduzir ainda mais os gastos com supérfluos (alimentação, por exemplo) ou acumular a mensalidade da escola de seu filho, a paz volta a imperar. E, afinal, tudo fica esquecido. Pelo menos até o próximo final de mês, quando, novamente voltarem os sintomas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Aululária, de Plauto e O Avarento, de Molière: uma breve comparação.

Aululária, de Plauto e O Avarento, de Molière: uma breve comparação

A riqueza cultural, na Antiguidade, é muito grande. Encontramos nos gregos a base de toda a literatura ocidental. Quase todos os temas abordados hoje em dia, por qualquer de nossos escritores, já foram desenvolvidos por eles. Os romanos também não ficaram para trás e usaram a cultura grega como modelo. Em algumas obras eles recontam mitos importados da Grécia e em outras apenas apresentam deuses latinos, que possuíam um correspondente grego, como personagens.

Embora os valores morais e os costumes da sociedade tenham se modificado, ainda hoje encontramos escritores que se inspiram na literatura da Idade Antiga. Luiz Antonio de Assis Brasil declarou ter-se inspirado na história de Agamemnon para escrever seu livro As virtudes de casa. E, como ele, muitos outros assim o fizeram. A comédia O avarento, de Molière, também é uma releitura da Aululária, de Plauto. As duas comédias possuem basicamente o mesmo tema. A ação de ambas gira em torno de um homem que, por ser extremamente avaro, prefere levar uma vida miserável a ter de usar a fortuna escondida que possui.

Em Aululária o avaro Euclião esconde uma panela cheia de ouro, fazendo-se passar por pobre. Sofre de uma paranoia que o faz acreditar estar sempre sendo vítima de conspiradores que visam roubar sua fortuna. A filha de Euclião deseja casar-se com Licônidas, mas o tio do rapaz, sem saber da intenção do sobrinho, antecipa-se e pede a mão da moça a seu pai. Euclião permite o casamento, mas antes, exige que o noivo, Megadoro, libere-o do dote da moça, alegando que nada possui. Um escravo rouba o ouro de Euclião, deixando-o enlouquecido. Enquanto isso, Licônidas pede a sua mãe que conte ao irmão do amor que há entre ele a filha de Euclião, e que a moça espera um filho seu, no intuito de convencer Megadoro a abrir mão da noiva em seu favor. Licônidas encontra seu futuro sogro, Euclião e acontece um mal-entendido entre os dois, pois, enquanto um desculpa-se por ter seduzido a filha do outro, o outro entende que ele está confessando ter roubado seu tesouro. No final tudo acaba bem, pois, os dois apaixonados podem ficar juntos e o ouro é restituído a seu verdadeiro dono, que resolve se transformar em pródigo de uma hora para outra.

Na comédia O avarento, há, também, um homem que possui um tesouro escondido, porém neste caso são moedas de ouro enterradas no jardim. Nessa comédia acontece, como na outra, de um casal apaixonado ter seu amor ameaçado. Mas, neste caso, não é com a filha do avaro que tal fato ocorre, e sim, ele é quem deseja casar-se com Mariana, a amada de seu filho. Há um criado que rouba as moedas de Harpagon, o avarento, mas as entrega a Cleanto, seu filho e apaixonado de Mariana. Graças a este fato, Cleanto consegue, então, chantagear seu pai, dizendo que só devolverá as moedas se ele consentir em seu casamento com Mariana. Nessa peça há, também, outras personagens que não possuem correspondente na peça latina.

Quanto ao tempo, observa-se que, em ambas as comédias, ele não é muito dilatado, tal como Aristóteles sugeriu, em sua Poética, que deveria ser. Nas duas peças percebe-se que a ação deve acontecer em apenas um dia. No que se refere ao espaço, não há correspondência, pois Aululária passa-se na cidade de Atenas e O avarento na casa de Harpagon, em Paris. O cenário é descrito como sendo ambiente de muita pobreza, com janelas que possuem vidros quebrados e substituídos por papéis, cadeiras desconjuntadas e tudo muito ordinário.

As personagens de Aululária são: O Deus Lar; Euclião, um velho; Estáfila, escrava de Euclião; Megadoro, um velho rico; Eunômia, irmã de Megadoro; Licônidas, filho de Eunômia e sobrinho de Megadoro; Fedra, filha de Euclião, grávida de Licônidas e prometida a Megadoro; Estrobilo, escravo de Megadoro; Antraz e Congrião, escravos cozinheiros. Em O avarento, as personagens são: Harpagon, o avaro, apaixonado por Mariana; Elisa e Cleanto, filhos de Harpagon; Valério, namorado de Elisa e filho de Anselmo; Mariana, amada de Cleanto e Harpagon e filha de Anselmo; Anselmo, um homem rico que deseja se casar com Elisa; Frosina, uma intrigante; Simão, corretor de negócios; Joaquim, cozinheiro e cocheiro de Harpagon; La Flèche, criado de Cleanto; Dona Cláudia, Merluche e Brindavoine, criados de Harpagon e, ainda, um comissário e um escrevente. As personagens Euclião e Harpagon são correspondentes, pois são os avaros que escondem todo o seu ouro fazendo-se passar por pobres. Já os jovens Cleanto e Valério têm o mesmo problema que Licônidas, pois os três veem suas amadas prometidas a outro homem.

Era costume dos romanos, iniciarem uma peça com a fala de um deus, que deveria apresentar um breve resumo do que seria contado na peça. Em Aululária, a comédia tem início com a fala do Deus Lar, que protege a família e que tem a lareira como seu lugar de culto. Este deus foi quem manteve escondido, durante anos, o tesouro que, mais tarde, Euclião encontrou. Na comédia O avarento, não encontramos a presença de entidades sobrenaturais. Não há a manifestação de qualquer tipo de deus em nenhum momento.

O principal recurso utilizado, em ambas as comédias, é a “caricatura” que se observa nas personagens Euclião e Harpagon. São pessoas que chegam a um extremo tão grande de avareza que se tornam cômicos. É a exploração do ridículo. Outros fatos bastante engraçados são os mal-entendidos que acontecem quando roubam os avaros, pois, nos dois casos, eles atribuem a culpa a pessoas erradas, que lhes falam do amor que sentem por suas filhas e eles entendem que os jovens se referem aos seus tesouros, causando tremenda confusão. Na obra Aululária, é usado um recurso muito comum nas comédias latinas da época, que é a pancadaria. Em O avarento, tem um momento em que Harpagon ameaça bater no criado de seu filho, caso ele não saia de dentro de sua casa.

A comédia Aululária passa-se em Atenas, embora seja uma história contada por um romano. A questão é que os romanos valorizavam muito a cultura grega e sempre preferiam contar suas histórias como se acontecessem em cidades gregas. Ainda assim, eram mantidas certas referências culturais dos latinos, como por exemplo, os deuses, que mesmo tendo um correspondente grego, tinham seus próprios nomes latinos respeitados.

Na comédia de Plauto percebe-se o quanto as mulheres, na Antiguidade romana, tinham a sua vontade desrespeitada, pois se o pai decidisse casar a filha com um homem de sua vontade, a moça deveria aceitar. O mesmo ocorre em O avarento, apesar de a história se passar alguns séculos mais tarde, já que Mariana e Elisa também são impedidas de escolherem seus futuros maridos.

As comédias Aululária, de Plauto, e O avarento, de Molière apresentam uma diferença fundamental. Na primeira observamos uma certa ingenuidade por parte do comediógrafo, pois é ignorada a coerência interna da obra, na medida em que Euclião, de uma hora para outra, transforma-se em um pródigo e abre mão de sua fortuna. Não é respeitado aquilo que Aristóteles chamou de verossimilhança. Por outro lado, em O avarento, Molière conseguiu manter esta coerência interna até o fim, pois em nenhum momento houve qualquer contradição por parte de Harpagon ou de qualquer outra personagem. Todos se mantiveram fiéis à própria natureza pessoal do início ao fim da peça.

Aululária, de Plauto e O Avarento, de Molière: uma breve comparação.

domingo, 23 de agosto de 2015

O Realismo em O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós - Editora Martin Claret

O Realismo é um movimento que surge na França, em meados do século XIX, como contraponto ao Romantismo, combatendo as idealizações do sublime (o Amor, o Ódio, a Justiça, etc.) e o embelezamento fantasioso da realidade. Tem como pressuposto histórico a Revolução Industrial, pois através dela a ciência e a tecnologia passam a ter um papel preponderante e a sociedade começa a apresentar-se extremamente materialista. 

No mesmo período, a concepção bíblica da origem do homem é abalada pela teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, segundo a qual os seres evoluem em um processo de seleção natural em que somente os mais fortes, e com mais capacidade de adaptação, sobrevivem. Essa teoria, acompanhado do Positivismo e do Determinismo, representa o substrato ideológico do Realismo. De acordo com a concepção positivista, o artista é alguém que se volta para o social em detrimento do individual. É um observador. Já o Determinismo, sugere que tudo pode ser explicado através de causas bioquímicas, biológicas, físicas, químicas, etc., que determinam o que será o ser humano. O escritor realista tenta comprovar as teses de raça, meio e momento histórico, escrevendo sobre a sua época e o seu lugar. O Realismo preocupa-se com o “aqui e agora”.

Para os realistas, a existência deve ser encarada fria e objetivamente, sem a intromissão do autor, e os fatos devem ser mostrados como são, comprometidos com a verdade, fazendo oposição ao idealismo romântico. As obras realistas devem ser contemporâneas, descrevendo o homem da época com seus conflitos. O protagonista não é nem o herói nobre, nem o burguês atormentado, mas sim o homem comum, entediado. O escritor realista busca, não só descrever a realidade, mas também interpretá-la. Há predomínio da razão e da observação sobre o sentimento e a imaginação, não havendo espaço para o fantástico, o sobrenatural, etc. Os realistas preocupam-se bastante com a forma, usando uma linguagem clara para serem compreendidos, com poucas metáforas e pouca observância das regras gramaticais. Para esses escritores, o relato fiel e minucioso das personagens é mais importante do que o próprio mito.

Eça de Queirós é um dos principais escritores portugueses adeptos do Realismo. Em 1865, faz parte do grupo de estudantes de Coimbra que, sob o comando do jovem poeta socialista Antero de Quental, luta contra o já decrépito espírito romântico, simbolizado pelo velho e cego escritor Antonio Feliciano de Castilhos.

Em 1871, realizam-se as famosas Conferências do Cassino Lisbonense, em que um público jovem aplaude com entusiasmo palestras radicais, republicanas, positivistas, socialistas e antiromânticas. Eça fala sobre O Realismo como nova expressão da arte e obtém enorme repercussão. Após formar-se, dedica-se à vida diplomática, servindo em Cuba, na Inglaterra e na França. É desses países que envia seus romances a Portugal, sacudindo, assim, o marasmo intelectual desse país.

Dentre as principais obras de Eça está O crime do padre Amaro, que representa uma crítica violenta ao celibato e à vida da província, marcada pela falsa devoção e pela hipocrisia. Amaro Vieira é filho da criada predileta de uma marquesa, que vem a adotá-lo depois que ele fica órfão. Educado por padres, torna-se sacerdote por comodismo. Nomeado para Leiria, lá encontra Amélia, filha da concubina de um padre, o cônego Dias. Educada por padres amorais e velhas devotas, Amélia é seduzida por Amaro.

As beatas e padres são apresentados de forma humorística e sarcástica pelo narrador, mas os outros membros da sociedade de Leiria não são menos ridículos: o jornalista Agostinho Pinheiro, o corrupto Gouveia Ledesma e Carlos, o burguês reacionário.

Depois de romper a relação com um noivo ciumento e desconfiado, Amélia torna-se amante do padre Amaro. Sob o pretexto de tentarem a recuperação de uma paralítica, os amantes encontram-se seguidamente. Amélia engravida e é obrigada a mudar-se. Ela morre depois que lhe tiram o filho, que é entregue a Carlota, uma aborteira, contratada por Amaro. O menino vem a morrer de forma ambígua, embora Carlota alegue morte natural.

Observa-se, no breve resumo acima, a presença das principais características do Realismo. Percebe-se facilmente que Amaro não lembra nem de longe o herói idealizado dos românticos, pois é um homem fraco, que se acomodou, por conveniência, em uma situação à qual não escolheu. Vivia atormentado por desejos da carne e encarava o celibato cinicamente. Amaro não constitui uma exceção na obra, já que o clero se apresenta corrompido e os padres vivem naturalmente em pecado sem nenhuma culpa. Veja-se na passagem abaixo da obra: "Fechou de vagar a cancela, subiu à cozinha a acender o seu candeeiro; como as ruas estavam molhadas da chuva da manhã, trazia ainda galochas de borracha; os seus passos não faziam rumor no soalho; ao passar diante da sala de jantar sentiu diante do quarto da S. Joaneira, através do reposteiro de chita, uma tosse grossa; surpreendido, afastou sutilmente um lado do reposteiro e, pela porta entreaberta, espreitou. — Oh, Deus de Misericórdia! A S. Joaneira, em saia branca, atacava o colete; e, sentado à beira da cama, em mangas de camisa, o cônego Dias resfolegava grosso!" (p. 80)

Como se pode observar este é o momento em que Amaro descobre que o cônego Dias tem um envolvimento amoroso com a S. Joaneira. Amaro demonstra-se horrorizado, porém, hipocritamente, já nutre desejos carnais pela jovem Amélia e, como todo herói realista, demonstra em várias passagens os seus conflitos em razão de tais sentimentos, como se pode constatar abaixo, quando o jovem padre sente ciúmes de Amélia com o noivo: "Odiou-a então, e o seu vestido afogado, e a sua honestidade! A estúpida, que não percebia que ao pé dela, sob uma negra batina, uma paixão devota a espreitava, a seguia, tremia e morria de impaciência! Desejou que ela fosse como a mãe — ou pior, toda livre, com vestidos garridos, uma cuia impudente, traçando a perna e fitando os homens, uma fêmea fácil como uma porta aberta…" (p. 83)

Nota-se que a preocupação de Eça em, O crime do padreAmaro, é denunciar e criticar a realidade de um clero corrompido, o que confirma a natureza realista da obra. Suas personagens falsas e interesseiras, absolutamente humanas, são tipicamente realistas e não se aproximam em nenhum momento dos seres moralmente perfeitos das obras românticas. São absolutamente desprovidas de grandeza de caráter, o que pode ser facilmente comprovado na forma egoísta e desumana com que o jovem casal, Amaro e Amélia, tratam a pequena deficiente Totó, filha do sineiro. A menina, para eles não representava nada, apenas a usavam para poderem viver o seu romance.

A narrativa é rica em minúcias e preocupa-se em transmitir uma mensagem, em provar uma tese, o que, de certa forma, consegue, pois o autor não deixa dúvidas de que, sob o seu ponto de vista, a Igreja é uma instituição falida, tanto pela mediocridade e superficialidade das beatas, quanto pela forma como os padres se utilizam de seu poder de confessores para manipularem as pessoas. Além disso, são criaturas tão capazes de sentimentos mesquinhos quanto qualquer outra.

Ao princípio, para consolar seu despeito, dizia ligeiramente mal da S. Joaneira, provocando, animando o coadjutor (que era de Leiria) a contar os escândalos da Rua da Misericórdia. O coadjutor, por servilismo, tinha sorrisos mudos, repassados de perfídia. (p. 107)

Mas o que o encantava era que nem as velhas, nem os padres, ninguém da sacristia, suspeitava os seus rendez-vous com Amélia. Aquelas visitas à Totó tinham entrado nos costumes da casa; chamavam-lhe ‘as devoções da pequena’; e não a interrogavam pelo princípio beato que as devoções são um segredo que se tem com Nosso Senhor. (p. 248)

Andava agora aterrada: viera-lhe a ideia que Deus estabelecera ali, ao lado do seu amor com o pároco, um demônio implacável para a escarnecer e apupar. Amaro, querendo-a tranquilizar, dizia-lhe que o nosso Santo Padre Pio XII, ultimamente, declarara pecado crer em ‘pessoas possessas’… (p.254)

Como se pode observar o ambiente clerical era, segundo a denúncia de Eça, contaminado pelas maldades e fraquezas humanas.




REFERÊNCIAS


QUEIRÓS, Eça de. Ocrime do padre Amaro. Portugal: Europa-América, sd.
ARAÚJO, Homero e FISCHER, Luís Augusto. Literatura Portuguesa. Porto Alegre: Novo Século, 1999.






http://leituras-compartilhadas.blogspot.com.br/2015/08/aulularia-de-plauto-e-o-avarento-de.html

sábado, 22 de agosto de 2015

Carlos Drummond de Andrade: quantas faces tem a poesia?

Carlos Drummond de Andrade: quantas faces tem a poesia?

É impossível pensar em poesia brasileira sem que nos lembremos de Carlos Drummond de Andrade. Um de meus poemas preferidos desse autor é "poema de sete faces", do livro Alguma Poesia. Encanta-me, não apenas o domínio fora do comum que o poeta demonstra ter da língua, mas também a forma como ele usa a poesia para se mostrar múltiplo, apresentando, na voz do eu-lírico,  faces de si mesmo que, de outra forma, jamais conheceríamos. É tocante percebermos que "o homem por trás dos óculos e do bigode" carrega sentimentos tão intensos e tão contraditórios, sem que ninguém perceba, pois seus olhos não o denunciam, "não perguntam nada". E então eu é que me pergunto: quantas faces tem a poesia de um poeta tão singular em sua pluralidade? Abaixo, transcrevo o poema referido, porém, recomendo a leitura do livro completo. Na sequência, deixo links para o documentário "Poeta de Sete Faces", o qual também recomendo.

POEMA DE SETE FACES

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.




Poeta de Sete Faces (1/9)






Poeta de Sete Faces (2/9)






Poeta de Sete Faces (3/9)







Poeta de Sete Faces (4/9)







Poeta de Sete Faces (5/9)








Poeta de Sete Faces (6/9)







Poeta de Sete Faces (7/9)








Poeta de Sete Faces (8/9)








Poeta de Sete Faces (9/9)






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Carlos Drummond de Andrade: quantas faces tem a poesia?

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Vida de pai


Hoje será um dia daqueles! Você acorda tarde depois de uma noite maldormida, com o recém-nascido chorando sem parar. Atrasado, não tem tempo nem mesmo de tomar um bom café da manhã. E lá vai você para mais um dia de trabalho. Corre para pegar o ônibus que passa segundos antes de você alcançar a parada. Mal chega ao escritório e já se arrepende de não ter ficado em casa dormindo. Depois do suave puxão de orelhas que leva do chefe começa a trabalhar. Nenhum momento de trégua, hoje não é seu dia. Problemas com fornecedores, clientes, funcionários e por aí vai. Não precisa dizer que no final de um dia de trabalho duro você quer mais é tomar uma chuveirada, comer algo leve e dormir o sono dos justos. Ilusão sua. Quando chega em casa sua família está toda reunida esperando por você. Hoje é o dia da apresentação do seu filho maior na escola, como você pôde esquecer? Chuveirada? Nem pensar, não há tempo. Lá vai você se sentindo um farrapo humano. Mas vale a pena, afinal não é todo o dia que o garoto participa de uma apresentação.

A festa será na praça em frente à escola. A garotada consegue parar o trânsito e deixar o guarda embevecido vendo passar os jovens artistas. Logo atrás, os corujas de plantão. Você reconhece que não deixa de ser divertido ver o guarda mudar rapidamente de expressão e ficar boquiaberto. Justifica-se: para cada criança a se apresentar conta-se um pai, uma mãe, um avô, uma avó, um padrinho, uma madrinha, amigos, vizinhos, cachorro, papagaio, perdendo-se a conta do número deles.

Parece que resolveram lhe sacanear, deixaram a turma do seu filho por último. Mas finalmente, depois de muitos empurrões e cotoveladas e uma espera que parecia interminável, chega o momento. A apresentação é uma loucura, todos querem filmar e fotografar os pequenos cantores. Quando você consegue ir embora já passa da meia-noite e o menino está simplesmente insuportável por causa do sono.

Bem, amanhã é outro dia e você terá de acordar cedo. Que nada, lá vai você correndo para chegar à parada a tempo de não perder o ônibus.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Florbela Espanca: alguns poemas

Florbela Espanca: alguns poemas


Florbela Espanca, poetisa portuguesa, nascida em 8 de dezembro de 1894, apesar de ter vivido pouco, pois morreu aos 36 anos, deixou uma obra poética vasta e de altíssima qualidade. A poetisa teve uma vida tumultuada, cheia de altos e baixos, perdas e sofrimentos. Florbela era uma mulher profunda, intensa, visceral, e isso se refletia em seus poemas. Por ser uma de minhas poetisas preferidas, pensei em escolher alguns de seus poemas para compartilhar com os leitores do blog. Então surgiu o impasse: que poemas escolher, já que são tantos e tão bonitos? Bem, não tem jeito, terei de escolher!!! Logo abaixo, deixo uma lista de seus livros. Como sua obra já é de domínio público, deixo links para para quem quiser baixá-los. Na sequência, um trailer do filme português "Florbela", que conta a história da poetisa. 


Amor que morre

O nosso amor morreu... Quem o diria?
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos pra partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De que outro amor impossível que há-de vir!





Fanatismo
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver, 
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça 
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros, 
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."




Os versos que te fiz
Deixa dizer-te os lindos versos raros 
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!




Eu …
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!



Amar!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...





Algumas de suas obras:


A Mensageira das Violetas  BAIXAR

Poemas Selecionados  BAIXAR

Livro de Mágoas  BAIXAR

Charneca em Flor BAIXAR

Livro de Sóror Saudade BAIXAR

O Livro D’ele  BAIXAR


Trailer do filme:






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terça-feira, 18 de agosto de 2015

Liberdade - Conto



NA SEGUNDA-FEIRA

Chega às sete horas para fazer o café dos patrões. Em seguida, guarda os objetos espalhados, estende a cama, varre a casa, aspira o pó dos tapetes, encera o chão, desinfeta o banheiro. Depois, tempera e cozinha os alimentos para o almoço. Serve. Come faminta. Lava a louça, dá brilho às panelas, esfrega o fogão, lava e passa a roupa. Prepara os alimentos para o jantar. Limpa a cozinha. E, finalmente, vai exausta.

NA TERÇA-FEIRA

Cansa às sete horas. Faz o café dos patrões. Guarda os objetos fatigados, estende a cama, varre a casa, aspira o pó dos tapetes, encera o chão, desinfeta o banheiro. Tempera e cozinha os alimentos para o almoço. Serve silenciosa. Come acabrunhada. Quebra a louça, dá brilho às panelas, esfrega o fogão, lava e amassa a roupa. Prepara os alimentos para o jantar. Limpa a cozinha. Vai embora alterada.

NA QUARTA-FEIRA

Sofre às sete horas. Faz o café amargurado. Guarda os objetos cansados, varre a cama, estende a casa, aspira o pó dos tapetes sublevados, encera o chão oprimido, desinfeta o banheiro. Destempera e cozinha os alimentos para o almoço. Serve acabrunhada. Come silenciosa. Quebra a louça desanimada, dá brilho às panelas revoltadas, esfrega o fogão, lava e amassa a roupa. Desprepara os alimentos para o jantar. Limpa a cozinha. Vai embora combalida.

NA QUINTA-FEIRA

Sufoca às sete horas. Limpa o café amofinado. Guarda os objetos exauridos, varre a cama, estende a casa, aspira o pó dos tapetes revoltosos, faz o chão oprimido, destempera o banheiro. Encera e cozinha os alimentos para o almoço. Chora silenciosa. Quebra desanimada. Esfrega a louça, dá brilho às panelas insurgentes, come o fogão apático, lava e amassa a roupa. Desinfeta os alimentos para o jantar. Destempera a cozinha. Vai embora transtornada.

NA SEXTA-FEIRA

Agoniza às sete horas. Quebra o café oprimido. Come os objetos amassados, varre a cama, estende a casa, esfrega o pó dos tapetes insurrectos, faz o chão atormentado, tempera o banheiro solitário. Encera e cozinha os alimentos para o jantar envenenado. Chora humilhada. Limpa alucinada. Desinfeta a louça, desfaz o brilho das panelas rebeldes, aspira o fogão insensível, lava e cansa a roupa. Guarda os alimentos para o almoço. Abomina a cozinha. Vai embora definhada.

NO SÁBADO

Morre às sete horas. Chora o café desvairado. Guarda os objetos delirantes, varre a cama, estende a casa, esfrega o pó dos tapetes amassados, destempera o chão amargurado, faz o banheiro aborrecido. Quebra e cozinha os alimentos para o jantar envenenado. Encera aturdida. Limpa oprimida. Come a louça. Desinfeta as panelas revoltadas, aspira o fogão apático, lava e cansa a roupa. Desfaz o brilho dos alimentos para o almoço contaminado. Incendeia a cozinha. Vai embora enlouquecida.


NO DOMINGO

Nem vê passar.

NAQUELA SEGUNDA-FEIRA

Chega às sete horas decidida. Compra sua alforria. Vai embora liberta.

TODOS OS OUTROS DIAS DE SUA VIDA

Escrava da miséria.


Texto publicado originalmente no Scribe.





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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Fundação Biblioteca Nacional, ou Biblioteca Nacional do Brasil




      Andava eu pelo You Tube procurando um certo vídeo que assisti há algum tempo sobre o modo como os livros eram feitos em tempos passados (muito passados) e eis que me deparo com uma série de três vídeos sobre a nossa Fundação Biblioteca Nacional, mais conhecida como Biblioteca Nacional do Brasil, situada na cidade do Rio de Janeiro, a sétima maior biblioteca do mundo, segundo a UNESCO. Claro que, imediatamente, pensei em compartilhar os ditos vídeos com os leitores do blog, afinal, dificilmente alguém que ama livros, não será capaz de se interessar, minimamente que seja, por uma biblioteca tão rica no que se refere à história do nosso país. Espero que gostem dos vídeos sobre a nossa Fundação Biblioteca Nacional, ou simplesmente, Biblioteca Nacional do Brasil.

Parte 1



Parte 2




Parte 3

domingo, 16 de agosto de 2015

Dicas de blogs literários




      Sempre gostei de ler artigos e resenhas publicados em blogs de todo tipo. Porém, ultimamente tenho acompanhado mais de perto alguns blogs literários, um interesse natural, já que estou envolvida na organização, divulgação, e produção de textos para um blog que trata sobre assuntos relacionados à leitura e aos livros. O que posso dizer a vocês é que tenho encontrado algumas pérolas! Então pensei em compartilhar algumas dicas de blogs literários, afinal, o nosso propósito aqui é, justamente, compartilhar leituras. 

      O primeiro sobre o qual gostaria de falar é o blog do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea. Li neste blog excelentes artigos, tanto no que se refere ao aspecto formal dos textos, quanto ao conteúdo. O grupo vincula-se ao programa de pós-graduação da Universidade de Brasilia, e conta com a colaboração de pesquisadoras e pesquisadores de diferentes instituições, tanto do Brasil, quanto do exterior.

      Outro blog que achei bastante interessante foi o Da Literatura. Neste não encontraremos textos tão aprofundados como no citado anteriormente. Trata-se de resenhas curtas, mas que dão conta de nos apresentar, de forma clara e objetiva, livros dos mais variados gêneros. 

      O blog Literatura é show não traz resenhas sobre livros, mas constitui-se num excelente auxílio para aqueles que se preparam para enfrentar provas do tipo vestibular ou ENEM. O site apresenta um formato visual que facilita o acesso aos seus pequenos mas eficientes textos.


      Quero morar em uma livraria é o nome do nosso quarto e último blog indicado. Como o próprio nome sugere, neste blog encontramos artigos sobre livros, escritores e até mesmo sobre personagens de tirinhas, o que demonstra uma visão mais ampliada do conceito de leitura. Os textos são muito acessíveis e bem escritos. Espero que visitem e que gostem dos blogs recomendados. Enfim, divirtam-se!!! Continuarei as minhas "andanças" e, assim que possível, deixarei novas dicas de blogs literários.


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