domingo, 23 de agosto de 2015

O Realismo em O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós - Editora Martin Claret

O Realismo é um movimento que surge na França, em meados do século XIX, como contraponto ao Romantismo, combatendo as idealizações do sublime (o Amor, o Ódio, a Justiça, etc.) e o embelezamento fantasioso da realidade. Tem como pressuposto histórico a Revolução Industrial, pois através dela a ciência e a tecnologia passam a ter um papel preponderante e a sociedade começa a apresentar-se extremamente materialista. 

No mesmo período, a concepção bíblica da origem do homem é abalada pela teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, segundo a qual os seres evoluem em um processo de seleção natural em que somente os mais fortes, e com mais capacidade de adaptação, sobrevivem. Essa teoria, acompanhado do Positivismo e do Determinismo, representa o substrato ideológico do Realismo. De acordo com a concepção positivista, o artista é alguém que se volta para o social em detrimento do individual. É um observador. Já o Determinismo, sugere que tudo pode ser explicado através de causas bioquímicas, biológicas, físicas, químicas, etc., que determinam o que será o ser humano. O escritor realista tenta comprovar as teses de raça, meio e momento histórico, escrevendo sobre a sua época e o seu lugar. O Realismo preocupa-se com o “aqui e agora”.

Para os realistas, a existência deve ser encarada fria e objetivamente, sem a intromissão do autor, e os fatos devem ser mostrados como são, comprometidos com a verdade, fazendo oposição ao idealismo romântico. As obras realistas devem ser contemporâneas, descrevendo o homem da época com seus conflitos. O protagonista não é nem o herói nobre, nem o burguês atormentado, mas sim o homem comum, entediado. O escritor realista busca, não só descrever a realidade, mas também interpretá-la. Há predomínio da razão e da observação sobre o sentimento e a imaginação, não havendo espaço para o fantástico, o sobrenatural, etc. Os realistas preocupam-se bastante com a forma, usando uma linguagem clara para serem compreendidos, com poucas metáforas e pouca observância das regras gramaticais. Para esses escritores, o relato fiel e minucioso das personagens é mais importante do que o próprio mito.

Eça de Queirós é um dos principais escritores portugueses adeptos do Realismo. Em 1865, faz parte do grupo de estudantes de Coimbra que, sob o comando do jovem poeta socialista Antero de Quental, luta contra o já decrépito espírito romântico, simbolizado pelo velho e cego escritor Antonio Feliciano de Castilhos.

Em 1871, realizam-se as famosas Conferências do Cassino Lisbonense, em que um público jovem aplaude com entusiasmo palestras radicais, republicanas, positivistas, socialistas e antiromânticas. Eça fala sobre O Realismo como nova expressão da arte e obtém enorme repercussão. Após formar-se, dedica-se à vida diplomática, servindo em Cuba, na Inglaterra e na França. É desses países que envia seus romances a Portugal, sacudindo, assim, o marasmo intelectual desse país.

Dentre as principais obras de Eça está O crime do padre Amaro, que representa uma crítica violenta ao celibato e à vida da província, marcada pela falsa devoção e pela hipocrisia. Amaro Vieira é filho da criada predileta de uma marquesa, que vem a adotá-lo depois que ele fica órfão. Educado por padres, torna-se sacerdote por comodismo. Nomeado para Leiria, lá encontra Amélia, filha da concubina de um padre, o cônego Dias. Educada por padres amorais e velhas devotas, Amélia é seduzida por Amaro.

As beatas e padres são apresentados de forma humorística e sarcástica pelo narrador, mas os outros membros da sociedade de Leiria não são menos ridículos: o jornalista Agostinho Pinheiro, o corrupto Gouveia Ledesma e Carlos, o burguês reacionário.

Depois de romper a relação com um noivo ciumento e desconfiado, Amélia torna-se amante do padre Amaro. Sob o pretexto de tentarem a recuperação de uma paralítica, os amantes encontram-se seguidamente. Amélia engravida e é obrigada a mudar-se. Ela morre depois que lhe tiram o filho, que é entregue a Carlota, uma aborteira, contratada por Amaro. O menino vem a morrer de forma ambígua, embora Carlota alegue morte natural.

Observa-se, no breve resumo acima, a presença das principais características do Realismo. Percebe-se facilmente que Amaro não lembra nem de longe o herói idealizado dos românticos, pois é um homem fraco, que se acomodou, por conveniência, em uma situação à qual não escolheu. Vivia atormentado por desejos da carne e encarava o celibato cinicamente. Amaro não constitui uma exceção na obra, já que o clero se apresenta corrompido e os padres vivem naturalmente em pecado sem nenhuma culpa. Veja-se na passagem abaixo da obra: "Fechou de vagar a cancela, subiu à cozinha a acender o seu candeeiro; como as ruas estavam molhadas da chuva da manhã, trazia ainda galochas de borracha; os seus passos não faziam rumor no soalho; ao passar diante da sala de jantar sentiu diante do quarto da S. Joaneira, através do reposteiro de chita, uma tosse grossa; surpreendido, afastou sutilmente um lado do reposteiro e, pela porta entreaberta, espreitou. — Oh, Deus de Misericórdia! A S. Joaneira, em saia branca, atacava o colete; e, sentado à beira da cama, em mangas de camisa, o cônego Dias resfolegava grosso!" (p. 80)

Como se pode observar este é o momento em que Amaro descobre que o cônego Dias tem um envolvimento amoroso com a S. Joaneira. Amaro demonstra-se horrorizado, porém, hipocritamente, já nutre desejos carnais pela jovem Amélia e, como todo herói realista, demonstra em várias passagens os seus conflitos em razão de tais sentimentos, como se pode constatar abaixo, quando o jovem padre sente ciúmes de Amélia com o noivo: "Odiou-a então, e o seu vestido afogado, e a sua honestidade! A estúpida, que não percebia que ao pé dela, sob uma negra batina, uma paixão devota a espreitava, a seguia, tremia e morria de impaciência! Desejou que ela fosse como a mãe — ou pior, toda livre, com vestidos garridos, uma cuia impudente, traçando a perna e fitando os homens, uma fêmea fácil como uma porta aberta…" (p. 83)

Nota-se que a preocupação de Eça em, O crime do padreAmaro, é denunciar e criticar a realidade de um clero corrompido, o que confirma a natureza realista da obra. Suas personagens falsas e interesseiras, absolutamente humanas, são tipicamente realistas e não se aproximam em nenhum momento dos seres moralmente perfeitos das obras românticas. São absolutamente desprovidas de grandeza de caráter, o que pode ser facilmente comprovado na forma egoísta e desumana com que o jovem casal, Amaro e Amélia, tratam a pequena deficiente Totó, filha do sineiro. A menina, para eles não representava nada, apenas a usavam para poderem viver o seu romance.

A narrativa é rica em minúcias e preocupa-se em transmitir uma mensagem, em provar uma tese, o que, de certa forma, consegue, pois o autor não deixa dúvidas de que, sob o seu ponto de vista, a Igreja é uma instituição falida, tanto pela mediocridade e superficialidade das beatas, quanto pela forma como os padres se utilizam de seu poder de confessores para manipularem as pessoas. Além disso, são criaturas tão capazes de sentimentos mesquinhos quanto qualquer outra.

Ao princípio, para consolar seu despeito, dizia ligeiramente mal da S. Joaneira, provocando, animando o coadjutor (que era de Leiria) a contar os escândalos da Rua da Misericórdia. O coadjutor, por servilismo, tinha sorrisos mudos, repassados de perfídia. (p. 107)

Mas o que o encantava era que nem as velhas, nem os padres, ninguém da sacristia, suspeitava os seus rendez-vous com Amélia. Aquelas visitas à Totó tinham entrado nos costumes da casa; chamavam-lhe ‘as devoções da pequena’; e não a interrogavam pelo princípio beato que as devoções são um segredo que se tem com Nosso Senhor. (p. 248)

Andava agora aterrada: viera-lhe a ideia que Deus estabelecera ali, ao lado do seu amor com o pároco, um demônio implacável para a escarnecer e apupar. Amaro, querendo-a tranquilizar, dizia-lhe que o nosso Santo Padre Pio XII, ultimamente, declarara pecado crer em ‘pessoas possessas’… (p.254)

Como se pode observar o ambiente clerical era, segundo a denúncia de Eça, contaminado pelas maldades e fraquezas humanas.




REFERÊNCIAS


QUEIRÓS, Eça de. Ocrime do padre Amaro. Portugal: Europa-América, sd.
ARAÚJO, Homero e FISCHER, Luís Augusto. Literatura Portuguesa. Porto Alegre: Novo Século, 1999.






http://leituras-compartilhadas.blogspot.com.br/2015/08/aulularia-de-plauto-e-o-avarento-de.html