Aululária, de Plauto e O Avarento, de Molière: uma breve comparação.

Aululária, de Plauto e O Avarento, de Molière: uma breve comparação

A riqueza cultural, na Antiguidade, é muito grande. Encontramos nos gregos a base de toda a literatura ocidental. Quase todos os temas abordados hoje em dia, por qualquer de nossos escritores, já foram desenvolvidos por eles. Os romanos também não ficaram para trás e usaram a cultura grega como modelo. Em algumas obras eles recontam mitos importados da Grécia e em outras apenas apresentam deuses latinos, que possuíam um correspondente grego, como personagens.

Embora os valores morais e os costumes da sociedade tenham se modificado, ainda hoje encontramos escritores que se inspiram na literatura da Idade Antiga. Luiz Antonio de Assis Brasil declarou ter-se inspirado na história de Agamemnon para escrever seu livro As virtudes de casa. E, como ele, muitos outros assim o fizeram. A comédia O avarento, de Molière, também é uma releitura da Aululária, de Plauto. As duas comédias possuem basicamente o mesmo tema. A ação de ambas gira em torno de um homem que, por ser extremamente avaro, prefere levar uma vida miserável a ter de usar a fortuna escondida que possui.

Em Aululária o avaro Euclião esconde uma panela cheia de ouro, fazendo-se passar por pobre. Sofre de uma paranoia que o faz acreditar estar sempre sendo vítima de conspiradores que visam roubar sua fortuna. A filha de Euclião deseja casar-se com Licônidas, mas o tio do rapaz, sem saber da intenção do sobrinho, antecipa-se e pede a mão da moça a seu pai. Euclião permite o casamento, mas antes, exige que o noivo, Megadoro, libere-o do dote da moça, alegando que nada possui. Um escravo rouba o ouro de Euclião, deixando-o enlouquecido. Enquanto isso, Licônidas pede a sua mãe que conte ao irmão do amor que há entre ele a filha de Euclião, e que a moça espera um filho seu, no intuito de convencer Megadoro a abrir mão da noiva em seu favor. Licônidas encontra seu futuro sogro, Euclião e acontece um mal-entendido entre os dois, pois, enquanto um desculpa-se por ter seduzido a filha do outro, o outro entende que ele está confessando ter roubado seu tesouro. No final tudo acaba bem, pois, os dois apaixonados podem ficar juntos e o ouro é restituído a seu verdadeiro dono, que resolve se transformar em pródigo de uma hora para outra.

Na comédia O avarento, há, também, um homem que possui um tesouro escondido, porém neste caso são moedas de ouro enterradas no jardim. Nessa comédia acontece, como na outra, de um casal apaixonado ter seu amor ameaçado. Mas, neste caso, não é com a filha do avaro que tal fato ocorre, e sim, ele é quem deseja casar-se com Mariana, a amada de seu filho. Há um criado que rouba as moedas de Harpagon, o avarento, mas as entrega a Cleanto, seu filho e apaixonado de Mariana. Graças a este fato, Cleanto consegue, então, chantagear seu pai, dizendo que só devolverá as moedas se ele consentir em seu casamento com Mariana. Nessa peça há, também, outras personagens que não possuem correspondente na peça latina.

Quanto ao tempo, observa-se que, em ambas as comédias, ele não é muito dilatado, tal como Aristóteles sugeriu, em sua Poética, que deveria ser. Nas duas peças percebe-se que a ação deve acontecer em apenas um dia. No que se refere ao espaço, não há correspondência, pois Aululária passa-se na cidade de Atenas e O avarento na casa de Harpagon, em Paris. O cenário é descrito como sendo ambiente de muita pobreza, com janelas que possuem vidros quebrados e substituídos por papéis, cadeiras desconjuntadas e tudo muito ordinário.

As personagens de Aululária são: O Deus Lar; Euclião, um velho; Estáfila, escrava de Euclião; Megadoro, um velho rico; Eunômia, irmã de Megadoro; Licônidas, filho de Eunômia e sobrinho de Megadoro; Fedra, filha de Euclião, grávida de Licônidas e prometida a Megadoro; Estrobilo, escravo de Megadoro; Antraz e Congrião, escravos cozinheiros. Em O avarento, as personagens são: Harpagon, o avaro, apaixonado por Mariana; Elisa e Cleanto, filhos de Harpagon; Valério, namorado de Elisa e filho de Anselmo; Mariana, amada de Cleanto e Harpagon e filha de Anselmo; Anselmo, um homem rico que deseja se casar com Elisa; Frosina, uma intrigante; Simão, corretor de negócios; Joaquim, cozinheiro e cocheiro de Harpagon; La Flèche, criado de Cleanto; Dona Cláudia, Merluche e Brindavoine, criados de Harpagon e, ainda, um comissário e um escrevente. As personagens Euclião e Harpagon são correspondentes, pois são os avaros que escondem todo o seu ouro fazendo-se passar por pobres. Já os jovens Cleanto e Valério têm o mesmo problema que Licônidas, pois os três veem suas amadas prometidas a outro homem.

Era costume dos romanos, iniciarem uma peça com a fala de um deus, que deveria apresentar um breve resumo do que seria contado na peça. Em Aululária, a comédia tem início com a fala do Deus Lar, que protege a família e que tem a lareira como seu lugar de culto. Este deus foi quem manteve escondido, durante anos, o tesouro que, mais tarde, Euclião encontrou. Na comédia O avarento, não encontramos a presença de entidades sobrenaturais. Não há a manifestação de qualquer tipo de deus em nenhum momento.

O principal recurso utilizado, em ambas as comédias, é a “caricatura” que se observa nas personagens Euclião e Harpagon. São pessoas que chegam a um extremo tão grande de avareza que se tornam cômicos. É a exploração do ridículo. Outros fatos bastante engraçados são os mal-entendidos que acontecem quando roubam os avaros, pois, nos dois casos, eles atribuem a culpa a pessoas erradas, que lhes falam do amor que sentem por suas filhas e eles entendem que os jovens se referem aos seus tesouros, causando tremenda confusão. Na obra Aululária, é usado um recurso muito comum nas comédias latinas da época, que é a pancadaria. Em O avarento, tem um momento em que Harpagon ameaça bater no criado de seu filho, caso ele não saia de dentro de sua casa.

A comédia Aululária passa-se em Atenas, embora seja uma história contada por um romano. A questão é que os romanos valorizavam muito a cultura grega e sempre preferiam contar suas histórias como se acontecessem em cidades gregas. Ainda assim, eram mantidas certas referências culturais dos latinos, como por exemplo, os deuses, que mesmo tendo um correspondente grego, tinham seus próprios nomes latinos respeitados.

Na comédia de Plauto percebe-se o quanto as mulheres, na Antiguidade romana, tinham a sua vontade desrespeitada, pois se o pai decidisse casar a filha com um homem de sua vontade, a moça deveria aceitar. O mesmo ocorre em O avarento, apesar de a história se passar alguns séculos mais tarde, já que Mariana e Elisa também são impedidas de escolherem seus futuros maridos.

As comédias Aululária, de Plauto, e O avarento, de Molière apresentam uma diferença fundamental. Na primeira observamos uma certa ingenuidade por parte do comediógrafo, pois é ignorada a coerência interna da obra, na medida em que Euclião, de uma hora para outra, transforma-se em um pródigo e abre mão de sua fortuna. Não é respeitado aquilo que Aristóteles chamou de verossimilhança. Por outro lado, em O avarento, Molière conseguiu manter esta coerência interna até o fim, pois em nenhum momento houve qualquer contradição por parte de Harpagon ou de qualquer outra personagem. Todos se mantiveram fiéis à própria natureza pessoal do início ao fim da peça.

Aululária, de Plauto e O Avarento, de Molière: uma breve comparação.