segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Eis o Natal: crônica




Reza a tradição, que o Natal é tempo de amor fraterno e solidariedade. No entanto, os Natais dos últimos anos não têm sido mais os mesmos. Não sei se foram eles que mudaram ou eu, mas lembro-me de um tempo em que, embora ainda não se tivesse o hábito de enfeitar as fachadas das casas, as noites de dezembro, quando se esperava ansiosamente por Papai Noel, eram bem mais luminosas e mágicas do que hoje em dia. Nessa época, não havia crises econômicas, preconceitos étnicos, intransigências políticas e religiosas, crianças abandonadas e outras coisas igualmente tristes. Não existia descaso e indiferença às dores alheias. Um tempo em que se doar era algo natural. Ao menos, eu, na minha gentil infância, assim enxergava.

Recordo-me bem do ano em que esta visão de mundo foi posta em xeque, quando passei a, não só perceber as desigualdades com a cabeça, mas a senti-las com o coração, quando distingui o real sentido da palavra solidariedade. Foi o primeiro Natal que minha família e eu passamos depois da morte de meu pai. Descobrimos um grupo de voluntários anônimos que se reuniam para levar um pouco de conforto aos moradores das rua. Passamos os dias 23 e 24 inteiros organizando pratos com guloseimas para serem distribuídos na noite de Natal. Dividimos a cidade de Porto Alegre em regiões. Separamo-nos em grupos e saímos para distribuir os pratinhos já prontos. O meu grupo ficou com uma região no centro da cidade que inseria a Praça da Matriz. Fui, cheia de sonhos juvenis, viver aquela que seria uma das experiências mais marcantes da minha vida. Era uma dessas noites em que, embora sendo entrada de verão, por um capricho da natureza, são muito frias. Tomamos o cuidado de levar muito chocolate quente em várias garrafas térmicas. Entrei em contato com um mundo que desconhecia completamente. Homens e mulheres que rolam pelas ruas, não só nas noites de natal, mas em todas as outras de suas vidas.

Em frente à Igreja da Matriz, havia dois mendigos comendo em um pratinho e tomando um copo de chocolate quente daqueles que estávamos distribuindo. Estranhamos, pois ainda não havíamos passado por ali. Então, perguntamos a eles se algum voluntário, responsável por outra região, teria lhes dado o lanche. Eles responderam que não. O que aconteceu foi que um deles estava dormindo na Praça XV quando fora acordado pelo grupo que havia ficado responsável por aquela região. O homem, então,  logo lembrou-se do amigo que estava na Praça da Matriz sem ter o que comer. Pegou o pratinho e o copo de chocolate quente, foi até onde se encontrava o companheiro de fome e dividiu com ele sua singela ceia de Natal.

A solidariedade do mendigo para com seu amigo e companheiro de infortúnio tocou uma notinha diferente, mais delicada, dentro mim. Mas também não pude deixar de constatar quão curiosa é a natureza humana. Enquanto seres da mesma espécie, tendo muito, sofrem tanto para doar um pouco, outros são capazes de dividir um mínimo, mesmo na mais completa penúria. E o mais curioso é que estes últimos precisam dividir o seu pouco porque os primeiros não abrem mão de acumular o seu muito. Ainda acho que a solidariedade está entre os mais belos sentimentos de que é capaz um ser humano, mas acredito, também, que o mundo, e os Natais em consequência, seriam bem melhores se não precisássemos ser solidários. A necessidade desse sentimento mostra as deficiências de nossa sociedade tão “boazinha”. Por isso, creio que jamais voltarei a enxergar as festas de fim de ano como enxergava em outros tempos, pois, embora ainda haja pessoas solidárias nos Natais, infelizmente, sempre haverá outras que não têm um mínimo de sentimento fraterno durante todo ano.

Texto originalmente publicado no Scribe.