quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Natal na Barca, de Lygia Fagundes Telles: um conto de renascimento


Natal na Barca está entre os meus contos preferidos por retratar metaforicamente o que o Natal representa: renovação. O conto mostra uma protagonista descrente, triste e completamente sem esperanças em relação à vida, e após uma experiência marcante e inacreditável, algo se transformará dentro dela. 

A história se passa em uma barca que faz a travessia de um rio na noite de Natal. Faziam a viagem, além da narradora, um bêbado e uma mulher com um manto escuro cobrindo-lhe a cabeça e carregando uma criança no colo. Depois de algum tempo estabeleceu-se um diálogo entre as duas mulheres e a narradora soube que a outra perdera um filho e que fora abandonada pelo marido. A mulher contou-lhe também que estava naquela barca porque precisa levar seu bebê ao médico, pois a criança estava doente. A simplicidade e a fé da mulher do manto chamaram a atenção da narradora, que demonstrava ser uma pessoa descrente. Em um determinado momento a narradora levanta o xale que cobre o menino e constata que ele está morto, mas não diz nada à sua mãe. Ao terminar a viagem ela só pensa em descer da barca e ir embora para fugir daquela situação. Porém, algo surpreendente acontece, algo que mudará para sempre a vida dessa mulher tão descrente. 

A mulher do manto e o bêbado são personagens secundários. Em um sentido psicológico estas personagens têm bastante importância, pois o bêbado representa um aspecto negativo do lado masculino da narradora, do seu animus e a mãe da criança representa sua sombra, aspectos de sua psique com os quais ela tinha perdido contato e que se mantinham no seu inconsciente. A criança também tem sua importância, pois representa o seu lado criativo esquecido, deixado de lado por possíveis decepções que podem ser representadas pela morte do primeiro menino, o mágico, que morreu justamente quando tentava "voar", ou seja, realizar seus sonhos. A narradora deixara de ver o lado mágico da vida. 

O tempo não é determinado no conto, tudo o que sabemos é que a história se passa na noite de Natal na travessia de um rio. Não sabemos, porém, quanto tempo levou essa travessia. Poderia ter sido meia hora ou a noite inteira. O conto Natal na Barca é um exemplo de narrativa em que o espaço é fundamental, pois é determinante para que possamos compreender o seu significado. A barca, na mitologia, representa a passagem do mundo dos vivos para o mundo dos mortos. E nesse conto possui um significado parecido, pois representa, para a protagonista, uma morte e um renascimento simbólicos. A passagem de um estado de profunda desesperança a outro em que começa a acreditar no futuro, em que suas esperanças renascem. 

Outro elemento importante do espaço é a vestimenta da mulher do manto, simples e despojada, porém, revestida de dignidade, simbolizando o que a narradora possui de melhor e mais puro em seu interior. O manto da mãe da criança remete-nos à ideia de agasalho e aconchego, coisas que a narradora parecia precisar. Há uma ligação entre as duas mulheres, pois a morte seguida de renascimento que a protagonista vive simbolicamente no conto, a mulher do manto já viveu com a morte de seu filho mais velho, até que, depois de uma noite escura, reencontra o menino em sonho e sente-se nova, com o sol batendo em seu rosto. É um conto belíssimo para quem acredita na regeneração de uma alma sofrida, na esperança e no futuro. E para quem acredita, sobretudo, em um final feliz.