Adélia Prado: um outro olhar sobre o cotidiano

Adélia Prado: um outro olhar sobre o cotidiano


Nascida em Divinópolis, Minas Gerais, aos 13 dias do mês de dezembro de 1935, Adélia Luiza Prado Freitas, ou simplesmente Adélia Prado, é uma das mais expressivas poetisas brasileiras. Seus poemas são densos e profundos e, ao mesmo tempo suaves, abordando temas corriqueiros. Creio que o mais encantador na obra de Adélia Prado seja essa sua capacidade de lançar um outro olhar sobre o cotidiano, de nos fazer enxergar com estranhamento o que já se tornou corriqueiro. 

Adélia Prado é mestra naquilo que o formalista russo Oleksander Potebnia chamou de singularização. Não é à toa que a poetisa recebeu a indicação de ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade para que seu primeiro livro, Bagagem, fosse publicado, em 1976, pela Editora Imago. Drummond definia seus poemas como "fenomenais". Faço minhas as palavras do poeta! 

Para quem quiser conhecer melhor a autora, recomendo o livro Poesia Reunida, da Editora Record.
Adélia Prado: um outro olhar sobre o cotidiano


Abaixo, alguns de seus poemas:


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


O vestido

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça 
meu vestido estampado em fundo preto. 
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas 
à ponta de longas hastes delicadas. 
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito, meu vestido de amante. 
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido. 
É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada: eu estou no cinema e deixo que segurem a minha mão. 
De tempo e traça meu vestido me guarda.


Ensinamento

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. 
Não é. 
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: 
"Coitado, até essa hora no serviço pesado". 
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente. 
Não me falou em amor. 
Essa palavra de luxo.








Adélia Prado: um outro olhar sobre o cotidiano