Adeus, China: o último bailarino de Mao, de Li Cunxin - Editora Fundamento

Adeus, China: o último bailarino de Mao, de Li Cunxin - Editora Fundamento
Adeus, China: o último bailarino de Mao
Autor: Li Cunxin
Editora Fundamento
Ano: 2015
Número de páginas: 408
Livro recebido em parceria com a editora

Adeus, Chinao último bailarino de Mao, da Editora Fundamento, consiste na autobiografia de Li Cunxin, que aos onze anos passou de camponês a estudante de balé na Academia de Dança de Pequim, na China comunista. Cunxin é o sexto filho de uma família de sete irmãos. Nasceu e viveu os primeiros anos de sua vida em Vila Nova, na Comuna de Li, nas proximidades da cidade de Quingdao, costa nordeste da China, que após a Revolução Cultural de 1949, passou a ser liderada por Mao Tsé-Tung. 

O livro inicia contando sobre o casamento dos pais de Cunxin, que aconteceu antes da revolução. Inicialmente, costumes tão diferentes dos nossos causam um certo estranhamento, pois logo percebemos que os noivos sequer se conhecem. Acompanhamos toda a angústia da jovem noiva, o receio por não saber se gostará do escolhido e se ele gostará dela, o medo de não ser aceita por não ter tido os pés enfaixados na infância, a tempo de torná-los pequenos (e atrofiados, claro!) e o desejo de que os pais do noivo apreciassem a comida oferecida, pois em caso contrário, a menina sofreria uma espécie de maldição por parte da sua futura família. Para nós que vivemos no mundo ocidental, são costumes muito estranhos. É então que chega o momento em que os jovens noivos se conhecem, após ele levantar o véu que cobria o rosto dela. Encantam-se um pelo outro, e é neste momento, em meio a doçura com que Cunxin narra o momento em que seus pais percebem-se apaixonados, que surge o meu encantamento pela obra. Afinal, por mais estranhos que nos pareçam o modo de viver e os costumes em uma outra cultura, os sentimentos, entre eles o amor, fazem com que nos identifiquemos,  como humanos que somos.

Quando Cunxin nasceu, a China já era comunista. Os camponeses, classe à qual o menino pertencia, trabalhavam de sol a sol, ainda assim, a miséria era muito grande. O principal componente da dieta da família era o inhame seco. Carne era algo raro, e tudo tinha de ser muito bem dividido. A casa era muito pequena, e as camas compartilhadas. Cunxin dormia com os pais e outro irmão. Apesar de todas as dificuldades, o menino era feliz com sua família, o que pode ser percebido pela forma afetiva que ele utiliza para contar essa fase de sua vida. É possível perceber que os vínculos afetivos eram muito fortes. Na escola, o pequeno Cunxin aprendeu a amar o chefe Mao e a estudar com afinco os ensinamentos do Livro Vermelho. Aprendeu, ainda, que a China era uma nação abençoada (a mais rica do mundo), salva por Mao Tsé-Tung, e que os países capitalistas eram todos muito miseráveis, sobretudo os Estados Unidos. Nada chegava, aos chineses, do mundo ocidental, livros, filmes e tudo o mais eram proibidos.

Adeus, China: o último bailarino de Mao, de Li Cunxin - Editora FundamentoÉ na escola que, após a visita de funcionários do governo, o menino é selecionado para estudar balé em Pequim. Sua família, apesar da separação, exulta com a possibilidade que o garoto tem de fugir da fome. E Cunxin vai embora, aos onze anos, viver longe da família, sob a responsabilidade do governo chinês. Neste ponto da história, eu já estava completamente envolvida com essa família tão simples e pobre, mas tão cheia afeto e dignidade. Por isso, sofri bastante quando o menino chorava de saudade, à noite, antes de dormir, abraçado à colcha costurada por sua niang (mãe). Realmente, partiu meu coração! Na escola de balé, o menino se alimentava muito bem, comia carne quase todos os dias, mas nunca deixou de pensar em seus pais e irmãos, que não tinham a mesma sorte. Cunxin teve muita dificuldade para se adaptar à nova vida, mas ao se tornar um jovem adulto, e já bem ambientado a essa nova situação, consegue uma bolsa para estudar nos Estados Unidos por seis semanas, e o melhor de tudo é que o governo chinês autorizou.

Creio que não preciso nem mencionar a surpresa que o jovem teve ao perceber o quão rico era aquele país do ocidente, sobre o qual ele ouvira falar de forma tão negativa. Inicialmente desconfiado, Cunxin foi, aos poucos, deslumbrando-se com tanta fartura e liberdade. Após terminar o período de seis semanas de seu curso, o bailarino recebeu um convite para um novo curso, dessa vez de um ano, cuja autorização o governo chinês concedeu, em um primeiro momento, para negar logo em seguida. Então Cunxin inicia uma luta para conseguir regressar à América, pois agora que enxergou a mentira em que vivera sua vida, e experimentou o gostinho da liberdade, já não pode mais viver da mesma forma que antes. Ele acaba conseguindo voltar, e é nessa segunda ida que se torna um desertor. Claro que não contarei aqui os detalhes e o desenlace dessa belíssima história de vida, mas acredito que seja fácil imaginar o que sofre alguém que tenta fugir ou foge de uma ditadura como a de Mao. Apesar de toda dificuldade, Cunxin tornou-se um grande bailarino, com fama internacional.

Posso dizer que vale cada hora gasta com a leitura, a história é linda e comovente, e o livro digno de ocupar um lugar de destaque em nossa estante e em nosso coração. O texto é muito agradável, de fácil leitura, mas o que mais me agradou foi a forma como o autor conseguiu imprimir os seus sentimentos a cada palavra escrita. Gostei tanto que resolvi assistir ao filme, que é muito bom também, mas não chega perto do livro, pois este é muito mais rico em detalhes. Em Adeus, China, Li Cunxin, ao contar a sua história, regala-nos com um belo exemplo de determinação, força e coragem, enfim, um exemplo de  vida. Recomendo a leitura para aqueles que gostam de saber mais sobre culturas diferentes, que apreciam textos que proporcionem conhecimentos históricos, e sobretudo, recomendo o livro aos apreciadores de um bom drama humano.

Adeus, China: o último bailarino de Mao, de Li Cunxin - Editora Fundamento

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