Foe, de J.M. Coetzee - Editora Companhia das Letras

Foe, de J.M. Coetzee
Foe, do escritor sul-africano J.M. Coetzee, publicado pela Companhia das Letras, traz-nos uma nova versão para Robinson Crusoé, a tão conhecida história de Daniel Defoe, sobre um náufrago que sobrevive em uma ilha. Este foi um livro que me deixou bastante intrigada. Gastei mais do meu tempo pensando sobre o que li na obra do que lendo-a propriamente, já que possui apenas 142 páginas, mas muitos significados escondidos nas entrelinhas. É um daqueles livros que nos deixa uma sensação de que há mais sendo dito do que aquilo está expresso em palavras. 

A história começa com uma mulher, Susan Barton, contando como sobreviveu a um naufrágio, após uma rebelião no navio onde se encontrava. Ela consegue chegar a uma ilha onde viviam um velho, Chamado Robinson Cruso, e um homem, chamado Sexta-Feira, cuja língua fora cortada e que Cruso alega tratar-se de um canibal. Susan não tem muita certeza se a história contada pelo velho é verdadeira, questionando-se sobre isso muitas vezes. Ela tenta convencer Cruso a contar a própria história, mas o homem parece não se interessar por isso. Após um ano na ilha, os três são resgatados, mas somente Susan e Sexta-Feira conseguem chegar à Europa, pois Cruso, muito doente, não resiste à viagem. Para sobreviver com Sexta-Feira, Susan decide vender a sua história. E é então, a meu ver, que o principal da narrativa realmente começa.

Durante a leitura da obra, não demora muito para que se perceba que Susan está, desde o começo, contando, a um escritor, o que vivera na ilha. Este escritor é Daniel Foe, incumbido de escrever essas aventuras vividas pela moça. Então surge um embate entre Susan e Foe. Ela quer que a história seja contada exatamente como ocorreu, absolutamente fiel à verdade; ele acredita que seria melhor criar aventuras extras, que tornariam a narrativa mais interessante e atraente. Mais do que isso não posso dizer sobre a história, mas posso atestar sobre o encantamento que tomou conta de mim ao perceber que, embora parecesse, inicialmente, tratar-se de um livro de aventuras, a obra revelou-se uma trama psicológica profunda, intensa e complexa. Trata-se de uma obra de arte literária, uma verdadeira homenagem à força da palavra. Se tivesse que definir a obra em poucas palavras, eu diria que é uma belíssima metáfora do fazer literário, do ofício do escritor. É um livro que certamente agradará a pessoas inteligentes, que pretendam ir além da mera aventura e da ação simplesmente. Amei Foe e recomendo!

Foe, de J.M. Coetzee

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