Mario Quintana: a força da simplicidade



"Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu." 

Mario Quintana, homem espirituoso, poeta de uma singeleza profunda. Sempre encontrava a forma mais simples e bela de falar sobre coisas que, embora importantes, acabamos por nos acostumar. Quintana não precisava de grandes temas para fazer um poema. Uma formiguinha que atravessasse uma folha de papel em branco era mais do que suficiente. 

Alegretense apaixonado por Porto Alegre, cidade onde viveu até sua morte, em 1994, fazia questão de não esconder essa paixão, que, por sinal, era correspondida pelos porto-alegrenses. Era comum (quem viveu na época sabe!) que encontrássemos o velho poeta caminhando, com seus passos lentos, pela Rua dos Andradas, carinhosamente chamada pelos gaúchos de Rua da Praia. 

Costumamos dizer que quando uma pessoa nos deixa, vira uma estrela. Quintana já foi uma estrela em vida! Hoje ele se incorporou à brisa de sua tão amada Porto Alegre e vive a acariciar-nos o rosto. Abaixo, alguns de seus inúmeros poemas. Para aqueles que não conhecem a obra do poeta, sugiro o livro Mario Quintana de Bolso, da Editora L&PM. Abaixo, alguns de seus poemas:



O Mapa
Olho o mapa da cidade 
Como quem examinasse 
A anatomia de um corpo... 

(É nem que fosse o meu corpo!) 

Sinto uma dor infinita 
Das ruas de Porto Alegre 
Onde jamais passarei... 

Há tanta esquina esquisita, 
Tanta nuança de paredes, 
Há tanta moça bonita 
Nas ruas que não andei 
(E há uma rua encantada 
Que nem em sonhos sonhei...) 

Quando eu for, um dia desses, 
Poeira ou folha levada 
No vento da madrugada, 
Serei um pouco do nada 
Invisível, delicioso 

Que faz com que o teu ar 
Pareça mais um olhar, 
Suave mistério amoroso, 
Cidade de meu andar 
(Deste já tão longo andar!) 

E talvez de meu repouso...


Seiscentos e sessenta e seis
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ªfeira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente...

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil 
das horas. 


Canção para uma valsa lenta
Minha vida não foi um romance…
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa… de encanto… de medo…

Minha vida não foi um romance,
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance…
Pobre vida… passou sem enredo…
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance…
Ai de mim… Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso… de um gesto… um olhar…


Do amoroso esquecimento
Eu agora — que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?


Poeminho do Contra
Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!


Os Poemas
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…










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