Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco: o lado deprê do Romantismo - Editora Martin Claret

Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco: o lado deprê do Romantismo - Editora Martin Claret
No final do século XVIII surge um novo público leitor com novas exigências. O público burguês, possuidor de escassos conhecimentos literários, prefere uma linguagem mais prosaica e direta, mais abundante que sóbria, e não se importa com convenções literárias. Nesse contexto nasce o Romantismo, movimento literário do qual Camilo Castelo Branco, autor da obra Amor de Perdição, faz parte. 

A obra narra o amor infeliz de dois jovens, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque. Os dois vivem uma profunda paixão que não pode se realizar por causa da inimizade entre as duas famílias. O pai de Teresa, Tadeu de Albuquerque, pretende casar a filha com um primo, Baltasar Coutinho. Diante da recusa da moça em obedecer, pai e primo tratam de interná-lá em um convento. Simão e Teresa comunicam-se por cartas. Simão, ao tentar encontrá-la no convento, enfrenta o pai da moça e Baltasar, o que desencadeia o conflito que termina com Simão matando o primo de Teresa. Depois de se entregar à justiça, Simão é condenado à morte e, depois, ao exílio na Ásia por dez anos. Atormentados pelo sofrimento, os dois jovens adoecem, Teresa no convento e Simão na prisão. Ela morre quando ele parte para o degredo, ele morre a bordo do navio que o leva para a Ásia. Ao lançarem seu cadáver ao mar, Mariana, sua amiga fiel, que lhe dedicava ardente amor platônico, suicida-se.

Há, na obra, um predomínio da emoção sobre a razão, uma das características do Romantismo. Os amantes entregam-se à paixão incondicionalmente e, até mesmo, morrem por ela. Simão é o típico herói romântico, que não racionaliza suas atitudes, age conforme seus instintos. Sua amada e a amiga Mariana também encarnam as heroínas românticas, já que são capazes de viver e de morrer por um amor. Outra característica do Romantismo que podemos perceber na obra é o culto ao passado, já que Camilo Castelo Branco viveu entre 1825 e 1890, e a história narrada no romance tem início em 1779. Há, ainda, o distanciamento da obra romântica com relação à realidade, o que pode ser evidenciado pela imagem idealizada de mulher apresentada pelo narrador:

“(…) Muito há que me reluz e voeja, alada como o ideal querubim dos santos, nesta minha quase escuridade, aquela ave do céu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o rastilho de sangue que ela deixou na terra. Mais lágrimas que sangue deixaste, ó filha da amargura! Flores são tuas lágrimas, e do céu me diz se os perfumes delas não valem mais aos pés do teu Deus que as preces de muita devoção que morre santificada pelo mundo, e cujo cheiro de santidade não passa do olfato hipócrita ou estúpido dos mortais.” (pag 107)

O narrador da obra é onisciente intruso, o que pode ser observado em vários momentos do romance. Nos trechos abaixo podemos observar alguns momentos de onisciência do narrador:

“’Será aquela?, perguntou Mariana ao seu coração, que palpitava. ‘Se eu fosse amada como ela!…’” (pag 83)

“(…)era para pensar nas feições da amada do seu hóspede, e dizer, como em segredo, ao seu coração: ‘Não lhe bastava ser fidalga e rica: é, além de tudo, linda como nunca vi outra!’ E o coração da pobre moça avergando ao que a consciência lhe ia dizendo, chorava.” (pag.85) 

“O acadêmico parou, e ouviu a voz íntima que lhe dizia: ‘O teu anjo da guarda fala pela boca daquela mulher, que não tem mais inteligência que a do coração, alumiado pelo seu amor.’” (pag 89)

Nos exemplos abaixo, percebe-se a intrusão do narrador, através de momentos de digressão na obra.

“(…) Nos romances todas as crises se explicam, menos a crise ignóbil da falta de dinheiro. Entendem os novelistas que a matéria é baixa e plebeia. O estilo vai de má vontade para coisas rasas.(…)” (pag 72-73)

“(…) Nas máximas aflições, nas derradeiras horas do coração e da vida, é grato ainda sentir-se amado quem já não pode achar no amor diversão das penas, nem soldar o último fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do coração humano, seja o que for, no amor que nos dão é que nós graduamos o que valemos em nossa consciência.” (pag 76)

Outra particularidade do narrador de Amor de Perdição é o narratário, que se dirige às leitoras, como podemos observar nas passagens abaixo:

“Não desprazia, portanto, o amor de Mariana ao amante apaixonado de Teresa. Isto será culpa no severo tribunal das minhas leitoras; mas, se me deixam Ter opinião, a culpa de Simão Botelho está na fraca natureza(…)” (pag 76)

“— E Teresa?
Perguntam a tempos, minhas senhoras, e não me hei de queixar se me arguirem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menos porte.” (pag 107)

Além deste narrador, há um segundo que aparece em um determinado momento do romance e que é um narrador testemunha. Trata-se de Ritinha, irmã mais nova de Simão Botelho, que conta, através de uma carta, o que aconteceu com seu irmão na prisão e como ele reagiu à tentativa de ajuda de sua mãe, dona Rita Preciosa:

“Já lá vão cinquenta e sete anos, e ainda me lembro, como se fossem ontem passados, os tristes acontecimentos da minha mocidade. Não sei como é que tenho hoje mais clara a memória das coisas da infância. (…)” (pag 100-101)

O tempo que transcorre no romance é bem determinado, pois conta a história de amor dos jovens que se conheceram com quinze anos e morreram com dezoito, portanto, tudo acontece em três anos. Entretanto, há momentos em que a ordem cronológica é quebrada, ocorrendo analepses. Isso ocorre quando o narrador conta alguma história que ocorreu anteriormente ao romance de Teresa e Simão.

Os espaços são variados, e os principais são: a casa de Simão; a casa de Teresa; a cidade onde os dois moram; Coimbra, onde o rapaz estuda; a casa do pai de Mariana; os dois conventos onde a moça é internada, a prisão em que Simão fica e a nau onde o jovem morre e Mariana suicida-se. Observa-se que, embora seja uma história de amor, há muitos espaços de opressão, como os conventos e a prisão. Essa abundância de espaços deprimentes colabora para passar ao leitor a sensação de um amor que, embora bonito, é maldito porque destrói os amantes.

A obra é primorosa e mostra-nos o papel importante da literatura em nossas vidas no momento em que nos chama a atenção para os problemas da existência, fazendo-nos refletir sobre ela. Parece-nos natural que dois jovens amantes vivessem felizes para sempre, mas o amor, tão grandioso, algumas vezes é a perdição de quem ama (como no caso de Inês de Castro. Mas isso é assunto para outro dia). 










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