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Obra Completa de Lila Ripoll: uma preciosidade para os amantes de poesia - Editora Movimento

Lila Ripoll está, na minha opinião, entre as melhores poetisas de língua portuguesa. Há algum tempo, a Editora Moderna lançou a sua Obra Completa, a qual recomendo aos amantes de boa poesia, e da qual extrairei três poemas para comentar (os poemas estarão ao final de cada comentário). Lila Ripoll nasceu em Quarai, Rio Grande do Sul, no ano de 1905 e morreu em Porto Alegre, em 1967. Formou-se em Piano no Conservatório de Música, atual Instituto de Artes da UFRGS, na capital gaúcha. Na década de 1930 foi diretora do Departamento Cultural do Sindicato dos Metalúrgicos, onde militou pelo Partido Comunista, além de integrar o gabinete do Secretário da Educação Coelho de Souza. Em 1938 ocorreu a publicação da obra De Mãos Postas, seu primeiro livro de poesia. Entre 1945 e 1955 colaborou na revista literária “A Província de São Pedro” e no jornal “A Tribuna”. Foi ainda membro do comitê editorial da Revista “Horizonte”. Em 1950, foi candidata a deputada estadual pelo Partido Comunista. Participou, em 1951, do grupo Partidários da Paz, vinculado ao Conselho Mundial da Paz, com Graciliano Ramos, Dyonelio Machado e Laci Osório. Ainda em 1951, recebeu o prêmio Pablo Neruda da Paz, pelo livro Novos Poemas, em Praga. Foi presa após o golpe militar de 1964, e libertada em seguida por motivo de doença. Sua obra poética inclui os livros Por quê? (1947), Primeiro de Maio (1954), O Coração Descoberto (1961) e Águas Móveis (1967), entre outros. 

Os poemas de Lila Ripoll  possuem em comum o fato de tratarem da existência de forma melancólica e desesperançada. Essa característica pode ser percebida, não somente na escolha dos temas abordados, mas, também, na forma como esses textos estruturam-se. A poesia de Lila Ripoll vincula-se à segunda geração do modernismo e é profundamente marcada pelo engajamento político. Entretanto, não foi somente a política que serviu de tema para o seu trabalho. Na obra Por quê?, por exemplo, percebe-se uma atenção completamente voltada para questões de ordem mais existencial, o que pode ser comprovado pelo próprio título do livro, que remete a perguntas que não poderão ser respondidas. Lendo-se os poemas que compõem Por quê?, pode-se observar que todos possuem o mesmo tom de angústia acerca da realidade vivida, causada pela constatação de que esta não poderá ser alterada. 

No poema “Sem solução” o eu-lírico inicia mencionando o final de um sonho. Desde o começo do poema o leitor é levado a ter a impressão de um certo torvelinho, de acontecimentos que se sucedem de forma atabalhoada, sentimento reforçado pelo fato de a quinta estrofe, além de sugerir uma quebra, ser concluída com a palavra turbilhão. Aqui, pode-se pensar em uma vida sem esperanças para o futuro, ideia fortalecida pelo contraste entre a sétima estrofe, na qual o eu-lírico refere uma espera por um dia ensolarado, e a última, repetição da quarta, na qual “um vento sem precedentes” escurece o pensamento. Se recordarmos que a quarta estrofe antecede a ruptura apresentada na quinta (Perdi a palavra,/ perdi o sentido,/ perdi meu sonho/ no turbilhão), pode-se concluir que, realmente, não há solução para o eu-lírico, pois essa última estrofe antecederá nova crise.


SEM SOLUÇÃO
Caiu meu sonho,
dos lábios tristes,
numa palavra
que se perdeu...

Tenho a voz leve,
sem ressonâncias,
e existe sonho
maior que o meu.

Passaram bardos,
passaram Santos,
heróis passaram,
de ouvido atento.

Mas veio um vento
sem precedentes,
escurecendo
meu pensamento.

Perdi a palavra,
perdi o sentido,
perdi meu sonho
no turbilhão.

E agora vivo
sondando a terra
e os elementos,
sem solução.

Espero os ventos,
escuto a chuva,
aguardo a hora
do sol nascer.

Inutilmente
procuro um nome,
se até o sentido
fui esquecer.

Passaram bardos,
passaram Santos,
heróis passaram
de ouvido atento.

Mas veio um vento
sem precedentes,
escurecendo
meu pensamento.


Igualmente melancólico e não menos pessimista é o poema “… E esperanças para quê?”. As reticências no início e no final do título fazem pensar que o momento atual, em que não se tem esperanças, situa-se entre um passado tristonho e um futuro que não anuncia felicidade. As reticências aparecem novamente ao final do texto, após a pergunta “Que importa, se num dia transitório, no frio de um mundo sem termo, para sempre afundarei?…”, demonstrando que o futuro é algo incerto e angustiante, levando-nos ao encontro da morte. Além da interrogação acima mencionada, há outras que remetem, também, a uma indeterminação quanto ao que virá (“para quê?”, “de que valem?”, “para que servem?”, “que importa?”) e que reforçam a desesperança anunciada no título do poema, pois, afinal, para que tantas expectativas quando a morte é a única certeza. A terceira estrofe refere-se ao movimento cíclico da vida (“rodam, rodam”; “no girar inconstante”) reportando-nos à roda de fiar das moiras, que tecem o destino dos homens. 


...E ESPERANÇAS PARA QUÊ?…
Nem esperanças já tenho.
E esperanças para quê?
Se é tudo tão transitório,
de que valem esperanças?
pra que servem? para quê?

Brota um suspiro profundo,
que não pôde ser palavra,
e apenas dura um segundo.
O sol se funde na noite,
o dia desfaz a treva,
e gira a roda do mundo.

E rodam, rodam os homens
à procura de mais sorte.
E, no girar inconstante,
que move areias e nuvens,
correm todos para a vida
e sempre encontram a morte.

Transitória passageira
desta vida transitória,
também me deixo levar.
Rumo incerto.
Mar de escolhos.
Que importa o vento? Que importa,
se num dia transitório,
no frio de um mundo sem termo,
para sempre afundarei?...

 
O poema “Naufrágio”, apresenta o mesmo tom depressivo dos anteriores. Assim como o primeiro poema, esse exibe um predomínio de vogais fechadas, fortalecendo a percepção que temos logo no início: “uma sombra cobriu meu sonho”. No transcorrer do texto encontramos diversas palavras com o mesmo sentido sombrio desse primeiro verso: naufraga, medo, escondeu, apaga, sangue. Porém, a essas palavras se opõem outras relacionadas a aspectos mais positivos, lembrando a luta de um naufrago para manter a vida e evitar a morte. Outro elemento do poema que nos reporta a luta entre Eros e Thanatos é o seu ritmo que, ao contrário dos anteriores, que mostram uma constância, indica um movimento de onda, crescendo e voltando a diminuir, lembrando o mar. O poema é composto por três estrofes, cada uma com cinco versos. O primeiro verso de cada estrofe possui oito sílabas poéticas, o segundo tem nove, o terceiro e o quarto têm sete sílabas e o último somente três. Esse formato repete-se em todas as estrofes resultando em um efeito de “sobe e desce” que alude às ondas do mar durante um naufrágio.


NAUFRÁGIO
Uma sombra cobriu meu sonho,
desceu à terra, foi para o mar.
Vivo um pouco em cada barco
que naufraga silencioso,
sem chamar.

Um amor morou no meu peito,
cresceu sem medo, mas se escondeu.
Estou sempre em cada estrela,
que brilha um pouco e se apaga,
como eu.

Os meus braços estão quebrados,
sem ânsias novas para prender.
Rotas velas no mar alto,
levam sangue derramado,
sem morrer.

 

O que se pode constatar de comum nesses poemas é uma visão sombria da existência. Todos os três mostram um campo semântico repleto de imagens que reportam à uma postura depressiva frente à vida. Pode-se verificar que a estrutura é utilizada com bastante sabedoria para causar a impressão desejada, a de que tudo está perdido. Percebe-se que os sons, as palavras, e as relações entre os elementos que compõem o poema formam um todo harmônico e coerente que reforçam o sentido, fazendo com que não só compreendamos os textos, mas, também com que os sintamos. 

Abaixo, deixo mais dois poemas da autora:

MOMENTO
Sombras breves,
passam leves
nesta rua.

Sons partidos,
repartidos,
pelo vento.

Luz de prata
se desata
sobre o muro.

Vem da noite,
como açoite,
 uma lembrança.

Grilos chamam,
flores amam,
sobre a terra.

E há segredos,
véus de medos,
pelas almas.

Vidros de água,
rios de mágoa,
nos meus olhos.

Cicatrizes,
de infelizes
pensamentos.

Há gemidos,
retorcidos,
num sorriso.

Curta vida,
tão comprida
para os tristes!


CINZAS
Cingida por sete palmas,
descerei a terra, um dia.
Violetas roxas no peito,
fronte branca e alma fria.

Cabelos longos caídos
e arrastados pelo vento.
Em todo o corpo um espanto
e um lúcido entendimento.

Teu claro nome sonoro
entre os lábios, apertado.
Luas negras nos meus olhos.
E um segredo inconfessado.

Funestos ventos soprando,
em giros de contradanças,
do mar correrão os homens
e das ruas as crianças.

Estrelas, aves e nuvens
fugirão sem esperanças.
E o meu corpo diluído,
destruído,
derrotado,
manchará o céu de cinzas   —
das minhas desesperanças!

Análise do poema "A rispidez da floresta", de Marly de Oliveira, segundo a teoria de Roman Ingarden

Análise do poema "A rispidez da floresta", de Marly de Oliveira, segundo a teoria de Roman Ingarden
Roman Ingarden baseou sua teoria de análise da obra de arte literária na fenomenologia de Husserl, segundo a qual tudo o que existe é reduzido à consciência, pois é somente através dela que percebemos e conhecemos o mundo. Nessa perspectiva, a consciência seria aquilo que dá sentido a tudo o que existe. A interpretação ingardiana é voltada totalmente para a obra literária, desconsiderando tudo o que for externo a ela, como biografia do autor, subjetividade do leitor, elementos psicológicos ou o contexto histórico. A análise é absolutamente intrínseca, voltada para a estrutura do texto, para a obra em si, utilizando-se, para isso, de quatro estratos: fônico, das unidades de significação, das objetividades apresentadas e dos aspectos esquematizados. É conveniente observar que, embora perceba-se os quatro estratos presentes na obra, não é possível que se faça uma análise de cada um isoladamente sem que a unidade do texto seja prejudicada. Como lembra Salvatore D’Onófrio, “essa estratificação só existe graças ao esforço analítico do crítico, pois o texto é percebido pelos sentidos e pela consciência, à primeira vista, como um todo orgânico, uma forma homogênea”.

No poema “A rispidez da floresta, que integra o livro O Mar de Permeio, de Marly de Oliveira, pode-se perceber de que forma uma observação conjunta dos estratos pode contribuir para a qualidade da leitura, dando-nos uma possível direção para chegarmos à significação do texto. Composto por uma única estrofe de quinze versos livres e encadeados, formando um todo semântico, o poema de Oliveira não apresenta rimas nem métrica rígida. Não há repetições de palavras, o que nos dá uma impressão de objetividade, pois não repetindo, não anda em círculos. Essa ideia é reforçada nos versos sete e oito, “que entrevê um corredor/ sem curvas de labirinto”, fazendo-nos pensar em um caminho com começo, meio e fim, ou seja, uma trajetória a ser seguida. Percebe-se uma presença maior de substantivos do que de verbos, levando-nos a pensar em algo sólido e estável, confirmado pela enumeração do verso número seis, “de terra, de cascalho, de carvalho”, já que esses três elementos possuem as características da solidez e da permanência através dos tempos. Além de aparecerem menos verbos, demonstrando que o poema não transmite o sentimento de ação, mas sim de fixidez, dois desses verbos são “habitar/construir” (verso nove), confirmando essa ideia. Há, ainda, outros elementos que nos levam a seguir essa linha de pensamento, que seriam as aliterações em “s” e “r”. Essas duas consoantes quando pronunciadas podem propagar-se por longo tempo no ar, fazendo-nos pensar em algo que dura. A linguagem utilizada pelo eu-lírico é direta e “seca”, demonstrando dureza e solidez, o que podemos observar através de palavras como: rispidez, secos, mudez, cascalho, construir, casa, aguda, cortante, certeira, que dão o tom do poema. Percebe-se paralelismo nos versos 1/2 e 11/12, enumerações nos versos 6 e 15 e hipérbato no verso 4. Há variações no ritmo do poema levando-nos a pensar que, embora o caminho percorrido seja algo certo, demonstrado pelos elementos citados anteriormente, há dificuldades a serem superadas no decorrer do trajeto, o que talvez contribua para o olhar “mais seco”, para a ferida que “cria casca”.

Pensa-se na floresta como a alegoria de uma vida difícil, um caminho percorrido com sofrimento, talvez por alguém com idade avançada (por isso “viver com menos pressa”). O sofrimento mudo, solidificado, transformado em terra, cascalho, carvalho, leva o eu-lírico a buscar segurança em “habitar/construir uma outra casa” onde seja possível “acender uma fogueira” para afastar ataque de animais ameaçadores na “noite brava, metáfora de todos os perigos pelos quais se passa e dos medos que temos de tudo o que é desconhecido. O texto apresenta-nos uma floresta, em um plano literal, que representa a vida, em um plano figurativo. 

Abaixo, o poema.

A rispidez da floresta 
Os olhos estão mais secos
o viver com menos pressa
a ferida cria casca e aquilo
que dentro leva nem mais tem
nome se cala com aquela mudez
de terra de cascalho de carvalho,
que entrevê um corredor
sem curvas de labirinto,
onde se pode habitar/construir
uma outra casa
acendendo uma fogueira
afastando todo ataque
de lobos na noite brava,
de posse de alguma coisa
aguda cortante certeira.


Análise do poema "A rispidez da floresta", de Marly de Oliveira, segundo a teoria de Roman Ingarden

Carlos Drummond de Andrade: quantas faces tem a poesia?

Carlos Drummond de Andrade: quantas faces tem a poesia?

É impossível pensar em poesia brasileira sem que nos lembremos de Carlos Drummond de Andrade. Um de meus poemas preferidos desse autor é "poema de sete faces", do livro Alguma Poesia. Encanta-me, não apenas o domínio fora do comum que o poeta demonstra ter da língua, mas também a forma como ele usa a poesia para se mostrar múltiplo, apresentando, na voz do eu-lírico,  faces de si mesmo que, de outra forma, jamais conheceríamos. É tocante percebermos que "o homem por trás dos óculos e do bigode" carrega sentimentos tão intensos e tão contraditórios, sem que ninguém perceba, pois seus olhos não o denunciam, "não perguntam nada". E então eu é que me pergunto: quantas faces tem a poesia de um poeta tão singular em sua pluralidade? Abaixo, transcrevo o poema referido, porém, recomendo a leitura do livro completo. Na sequência, deixo links para o documentário "Poeta de Sete Faces", o qual também recomendo.

POEMA DE SETE FACES

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.




Poeta de Sete Faces (1/9)






Poeta de Sete Faces (2/9)






Poeta de Sete Faces (3/9)







Poeta de Sete Faces (4/9)







Poeta de Sete Faces (5/9)








Poeta de Sete Faces (6/9)







Poeta de Sete Faces (7/9)








Poeta de Sete Faces (8/9)








Poeta de Sete Faces (9/9)






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