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Meus livros inesquecíveis


Já há algum tempo que penso em fazer uma lista com os livros da minha vida, os melhores que já li, pois é muito comum que as pessoas me peçam sugestões de leitura ou perguntem sobre os meus livros de preferência. Isso para mim é um problema, pois quando penso que a lista já terminou, lembro-me de mais algum que não poderia ficar de fora. Então, para acrescentar mais um, penso em retirar outro, mas não consigo, pois todos que vão para a lista são importantes. Quanto mais penso, mais a lista aumenta. Pretendia que fossem cinco livros, achando que seria o suficiente. Cheguei em dez e ainda faltam livros. Então resolvi deixar assim e, futuramente, fazer listas diversas, agrupando os livros por gênero, temas, períodos, etc. Tenho uma quedinha por clássicos, por isso aparecerão alguns nesta primeira lista. Vamos a ela:

Cem Anos de Solidão, de Gabriel Gacía Márquez
Sinopse: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer a fábrica de gelo”... Com essa frase antológica, García Marquéz, Prêmio Nobel de Literatura de 1982, introduz a fantástica Macondo, um vilarejo situado em algum recanto do imaginário caribenho, e a saga dos Buendia, cujo patriarca, Aureliano, fez trinta e duas guerras civis... e perdeu todas. Em Macondo, os mortos envelhecem à vista dos vivos e os anjos chegam, sempre, em dezembro. Entretanto, García Marquéz nunca aceitou que suas narrativas fossem rotuladas como fantasia. Talvez porque isso exilasse Macondo num outro mundo, que nem a solidão ou a liberdade pudessem alcançar. Cem Anos De Solidão é a mais pura história do povo latino-americano. Mas ultrapassa o momento e expõe a alma dessa história - ou como é vivenciada.


O Processo, de Franz Kafka
Sinopse: A história de Josef K. atravessa os anos sem perder nada do seu vigor. Ao contrário, a banalização da violência irracional no século XX acrescentou a ela o fascínio dos romances realistas. Na sua luta para descobrir por que o acusam, por quem é acusado e que lei ampara a acusação, K. defronta permanentemente com a impossibilidade de escolher um caminho que lhe pareça sensato ou lógico, pois o processo de que é vítima segue leis próprias: as leis do arbítrio.


Crime e castigo, de Dostoiévski
Sinopse: Um dos maiores romances de todos os tempos, narra a história do estudante Raskólnikov, que, vendo-se na miséria, assassina uma velha usurária e não consegue livrar-se do peso do remorso. Obra da maturidade de Dostoiévski, pela primeira vez traduzida no Brasil diretamente do original russo.





Dom Casmurro, de Machado de Assis
Sinopse: Um romance que ficará pra sempre na memória dos leitores. Conheça o solitário Bentinho e a bela e intrigante Capitu, personagens principais desse grande clássico. Se envolva na trama de amor e paixão entre estes dois antagônicos personagens!




Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe
Sinopse: Nestes contos - selecionados e traduzidos por José Paulo Paes - Edgar Allan Poe imaginou algumas das mais conhecidas histórias de terror e suspense da literatura, tramas que migraram da ficção direto para o imaginário coletivo do Ocidente. É o caso de "O gato preto", a tenebrosa história de um assassinato malogrado, ou de "O poço e o pêndulo", que apresenta uma visão macabra da ansiedade da morte. Pioneiro dos contos de mistério, como "A carta roubada" e "O escaravelho de ouro", Poe deu a seus personagens notável profundidade psicológica. Usando de diversos artifícios narrativos inovadores, criava climas e situações aterrorizantes.


O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde
Sinopse: Em 1891, quando foi publicado em sua versão final, O retrato de Dorian Gray foi recebido com escândalo, e provocou um intenso debate sobre o papel da arte em relação à moralidade. Alguns anos mais tarde, o livro foi inclusive usado contra o próprio autor em processos judiciais, como evidência de que ele possuía “uma certa tendência” - no caso, a homossexualidade, motivo pelo qual acabou condenado a dois anos de prisão por atentado ao pudor. 
Mais de cem anos depois, porém, o único romance de Oscar Wilde continua sendo lido e debatido no mundo inteiro, e por questões que vão muito além do moralismo do fim do período vitoriano na Inglaterra, definida por um dos personagens do livro como “a terra natal da hipocrisia”. Seu tema central - um personagem que leva uma vida dupla, mantendo uma aparência de virtude enquanto se entrega ao hedonismo mais extremado - tem apelo atemporal e universal, e sua trama se vale de alguns dos traços que notabilizaram a melhor literatura de sua época, como a presença de elementos fantásticos e de grandes reflexões filosóficas, além do senso de humor sagaz e do sarcasmo implacável característicos de Wilde.


Orgulho e preconceito, de Jane Austen
Sinopse: Jane Austen inicia Orgulho e Preconceito com uma das mais célebres frases da literatura inglesa: "É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro e muito rico deve precisar de uma esposa". O livro é o mais famoso da escritora — traz uma série de personagens inesquecíveis e um enredo memorável. Austen nos apresenta Elizabeth Bennet como heroína irresistível e seu pretendente aristocrático, o sr. Darcy. O enredo aborda múltiplos aspectos: o orgulho encontra o preconceito e a ascendência social; equívocos e julgamentos antecipados conduzem alguns personagens ao sofrimento e ao escândalo. Porém, muitos desses conflitos conduzem os personagens ao autoconhecimento e ao amor. O livro pode ser considerado a obra-prima da escritora que, com sua refinada ironia, equilibra comédia e seriedade a uma observação meticulosa das atitudes humanas.


Misto Quente, de Charles Bukowski
Sinopse: O que pode ser pior do que crescer nos Estados Unidos da recessão pós-1929? Ser pobre, de origem alemã, ter muitas espinhas, um pai autoritário beirando a psicopatia, uma mãe passiva e ignorante, nenhuma namorada e, pela frente, apenas a perspectiva de servir de mão-de-obra barata em um mundo cada vez menos propício às pessoas sensíveis e problemáticas. Esta é a história de Henry Chinaski, o protagonista deste romance que é sem dúvida uma das obras mais comoventes e mais lidas de Charles Bukowski (1920-1994).
Verdadeiro romance de formação com toques autobiográficos, Misto-quente (publicado originalmente em 1982) cativa o leitor pela sinceridade e aparente simplicidade com que a história é contada. Estão presentes a ânsia pela dignidade, a busca vã pela verdade e pela liberdade, trabalhadas de tal forma que fazem deste livro um dos melhores romances norte-americanos da segunda metade do século XX. Apesar de ser o quarto romance dos seis que o autor escreveu e de ter sido lançado quando ele já contava mais de sessenta anos, Misto-quente ilumina toda a obra de Bukowski. Pode-se dizer: quem não leu Misto-quente, não leu Bukowski.

Madame Bovary, de Gustav Flaubert
Sinopse: Reconhecido por autores como Henry James como “o romance perfeito”, Madame Bovary é a obra fundamental de Gustave Flaubert (1821-80). Trata-se de um raridade, mesmo em um clássico, um exercício meticuloso de escrita que igualmente desafiava as estruturas literárias e as convenções sociais. Não à toa, a época de lançamento o impacto foi duplo: um sucesso de público e a reação feroz do governo francês, que levou o autor a julgamento sob a acusação de imoralidade. 
Flaubert inventou um estilo totalmente novo e moderno, praticando uma escrita que, ao longo dos cinco anos que levou para terminar o livro, literalmente avançou palavra a palavra. Cada frase devia refletir o esforço em obtê-la, sendo reescrita e reescrita ad infinitum . Mestre do realismo, o autor documenta a paisagem e o cotidiano da segunda metade do século XIX, ironizando os romances sentimentais e folhetins, gêneros que considerava obsoletos. 
A história faz um ataque à burguesia, desmoralizando-a com a descrição exuberante de sua banalidade. Em um tempo em que as mulheres eram submissas, Emma Bovary encontra nos tolos romances dos livros o antídoto para o tédio conjugal e inaugura uma galeria de famosas esposas adúlteras atormentadas na literatura.

Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector
Sinopse: Publicado pela primeira vez em 1971, "Felicidade Clandestina" reúne 25 contos que falam de infância, adolescência e família, mas relatam, acima de tudo, as angústias da alma. Como é comum na obra de Clarice Lispector, a descrição dos ambientes e das personagens perde importância para a revelação de sentimentos mais profundos.



Pai Goriot, de Balzac: uma crítica social - Editora Martin Claret

Em Pai Goriot, Balzac faz uma crítica social, mais especificamente à aristocracia francesa e toda a sua crueldade e cinismo. O romance conta a história de um jovem, estudante de direito que deixa seu local de origem para estudar em Paris. É um rapaz de poucas posses que mora em uma pensão burguesa decadente. Neste lugar conhece o velho solitário, conhecido por pai Goriot. O jovem, que é chamado de Eugène de Rastignac, é extremamente ambicioso e sonha relacionar-se com a aristocracia. Para isto, procura a ajuda de uma prima, a senhora de Beauséant, que o introduz nas altas rodas francesas. Porém, o jovem percebe que não possui roupas à altura das pessoas que frequentam este meio. Resolve, então, pedir ajuda à mãe, à irmã e a uma tia, que não vacilam em mandar-lhe todas as suas economias. Eugène compra roupas novas e investe em seus novos projetos. 

Conhece as filhas de pai Goriot, Delphine e Anastasie e fica sabendo da exploração que o velho sofre por parte das moças, que foram aos poucos consumindo tudo o que o pobre homem possuía, até deixá-lo na mais completa penúria. O senhor Goriot é extremamente dedicado às filhas e seu amor fora do comum faz com que não perceba os fatos como são na realidade, acreditando, ou forçando-se a acreditar, que as filhas o amam do mesmo modo que ele as ama. 
Rastignac acabou por envolver-se com Delphine e, por essa razão, aproximou-se mais de pai Goriot. Aos poucos, porém, o jovem foi tomando cada vez mais consciência da forma desumana com que as filhas tratavam o pai e apiedou-se do velho a ponto de criar-se um envolvimento afetivo entre ambos. Quando as filhas já não tinham mais o que tirar do pai, o velho adoece e é socorrido por Rastignac e por seu amigo, estudante de medicina. 

Mas 
Rastignac também possui as suas ambições. E ao constatar tal fato, o personagemVautrin tenta persuadi-lo a participar de um crime para tirar vantagens financeiras, casando-se com a filha do homem assassinado. Rastignac rejeita a proposta, pois, embora ambicioso, isso não está de acordo com seus princípios. Vautrin tenta convencê-lo utilizando-se da história do mandarim. Pergunta ao jovem se ele tivesse a oportunidade de tirar algum proveito com a morte de um mandarim detestável que só faz mal às pessoas se não o faria. Rastignac repudia tal ideia.

Como não podia deixar de ser, em se tratando de uma obra realista, Balzac nos apresenta uma crítica crua da sociedade, através de relações entre pessoas interesseiras, capazes de elaborar tramas de todo tipo. Mostra-nos a exploração de um pobre velho, pelas próprias filhas, que sequer sentem remorsos pelo que fazem ao pai. O final é triste, mas nos faz refletir profundamente sobre a natureza humana. Este não está entre os livros de que mais gostei, no entanto, posso dizer que é um livro muito bom. Recomendo a obra àqueles que apreciam uma leitura crítica e reflexiva.



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Crime e Castigo, de Dostoiévski: uma história de regeneração - Editora Martin Claret

Crime e Castigo, de Dostoiévski: uma história de regeneração - Editora Martin Claret
A obra Crime e castigo, de Dostoievski, tem como protagonista um jovem estudante de direito que muda para uma cidade grande a fim de frequentar a universidade. Não possui recursos financeiros e vive em uma pensão decadente recebendo ajuda da mãe e da irmã. Ródion Românovitch Raskolnikof havia parado com seus estudos por razões financeiras e já não tinha meios de pagar a pensão onde morava. Um dia, ouvindo uma conversa entre dois cavalheiros, na qual um deles dizia que a velha usurária Alena deveria ser assassinada, pois era uma pessoa desprezível e tratava muito mal a irmã Isabel, Ródion concebeu o seu plano. 

Após algum tempo de isolamento e premeditação, Raskolnikof assassinou Alena com machadadas na cabeça, e como Isabel chegasse quando ele ainda estava no local do crime, matou-a também. Roubou alguns objetos e dinheiro da velha, porém não deu importância alguma a isso, escondendo o produto do seu roubo embaixo de uma pedra. Após o crime, ele adoeceu e foi cuidado por seu amigo Razumikine e o médico Zózimof. Ao receber uma intimação, Raskolnikof foi, mesmo doente, ao comissariado para ver do que se tratava e, lá chegando, constatou que a dona da pensão onde morava estava reclamando os aluguéis atrasados. Durante a sua estada no comissariado, ouviu comentarem sobre a morte da velha e sua irmã e, não aguentando, passou mal e desmaiou. Tal atitude fez com que começassem a desconfiar dele.

Certa vez, após voltar ao local do crime e levantar suspeitas nas pessoas que estavam presentes, resolveu ir ao comissariado, porém foi desviado de seu destino ao encontrar Marmêladof, o seu amigo alcoólatra, atropelado na rua. Como ninguém mais o conhecesse, levou-o para casa e disse a Catarina, sua esposa, que chamasse um médico, pois ele estava disposto a pagar tudo. Marmêladof acabou por morrer e isto fez com que as relações entre Raskolnikof e a família do morto se estreitassem, pois o jovem ofereceu-se para pagar as despesas do funeral e, para isso, deu a Catarina todo o dinheiro que ganhara de sua mãe. 


Raskolnikof resolve contar sobre o crime a Sônia, filha de Marmêladof, porém, não imagina que Svidrigailof, homem casado que pretende seduzir a sua irmã, está escutando atrás da porta. Sônia desespera-se e pede a ele que se entregue. Na casa de Sônia, Svidrigailof demonstra a Raskolnikof que sabe de toda da verdade. Ródion procura Svidrigailof, que tenta esconder-se, mas não consegue. Conversam longamente e Raskolnikof percebe que o outro tenta livrar-se dele, e então o segue. Mas Svidrigailof consegue enganá-lo e fica sozinho para procurar Dúnia, irmã de
Raskolnikof. Os dois encontram-se na rua, mas Svidrigailof convence a moça a ir até o seu quarto. Lá chegando, ele conta sobre o crime de seu irmão e tenta possuí-la com chantagem, mas ela resiste e ele acaba por desistir, suicidando-se horas depois, mas não sem antes resolver o problema dos órfãos de Marmêladof e dar uma boa quantia em dinheiro para Sônia.

Por se tratar de uma obra da literatura russa, o mais difícil é não se confundir com tantos nomes diferentes dos personagens e, como se isso não bastasse, cada personagem tem vários nomes. Fora isso, o livro é fantástico no sentido de mostrar um raio-X da alma humana. Os personagens são extremamente complexos do ponto de vista psicológico e, mesmo o mais cruel ou degenerado, em algum momento mostra algo de bom, como Raskolnikof, que mata uma velha a machadadas, mas doa todo o seu dinheiro à viúva de Marmêladof para que ela faça o funerak do marido; ou como Svidrigailof, que tenta abusar de Dúnia, chantageando-a, mas antes de morrer ajuda financeiramente os órfãos. Por se tratar de uma obra realista, não podemos esperar finais extremamente felizes, ainda assim, o final da obra traz uma mudança que acontece de modo sutil em Raskolnikof, que pode ser interpretada como uma forma realista de regeneração. A obra é belíssima, está entre as minhas melhores leituras. Recomendo 
Crime e castigo para quem gosta de narrativas com forte teor psicológico.


Crime e Castigo, de Dostoiévski: uma história de regeneração - Editora Martin Claret


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Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco: o lado deprê do Romantismo - Editora Martin Claret

Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco: o lado deprê do Romantismo - Editora Martin Claret
No final do século XVIII surge um novo público leitor com novas exigências. O público burguês, possuidor de escassos conhecimentos literários, prefere uma linguagem mais prosaica e direta, mais abundante que sóbria, e não se importa com convenções literárias. Nesse contexto nasce o Romantismo, movimento literário do qual Camilo Castelo Branco, autor da obra Amor de Perdição, faz parte. 

A obra narra o amor infeliz de dois jovens, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque. Os dois vivem uma profunda paixão que não pode se realizar por causa da inimizade entre as duas famílias. O pai de Teresa, Tadeu de Albuquerque, pretende casar a filha com um primo, Baltasar Coutinho. Diante da recusa da moça em obedecer, pai e primo tratam de interná-lá em um convento. Simão e Teresa comunicam-se por cartas. Simão, ao tentar encontrá-la no convento, enfrenta o pai da moça e Baltasar, o que desencadeia o conflito que termina com Simão matando o primo de Teresa. Depois de se entregar à justiça, Simão é condenado à morte e, depois, ao exílio na Ásia por dez anos. Atormentados pelo sofrimento, os dois jovens adoecem, Teresa no convento e Simão na prisão. Ela morre quando ele parte para o degredo, ele morre a bordo do navio que o leva para a Ásia. Ao lançarem seu cadáver ao mar, Mariana, sua amiga fiel, que lhe dedicava ardente amor platônico, suicida-se.

Há, na obra, um predomínio da emoção sobre a razão, uma das características do Romantismo. Os amantes entregam-se à paixão incondicionalmente e, até mesmo, morrem por ela. Simão é o típico herói romântico, que não racionaliza suas atitudes, age conforme seus instintos. Sua amada e a amiga Mariana também encarnam as heroínas românticas, já que são capazes de viver e de morrer por um amor. Outra característica do Romantismo que podemos perceber na obra é o culto ao passado, já que Camilo Castelo Branco viveu entre 1825 e 1890, e a história narrada no romance tem início em 1779. Há, ainda, o distanciamento da obra romântica com relação à realidade, o que pode ser evidenciado pela imagem idealizada de mulher apresentada pelo narrador:

“(…) Muito há que me reluz e voeja, alada como o ideal querubim dos santos, nesta minha quase escuridade, aquela ave do céu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o rastilho de sangue que ela deixou na terra. Mais lágrimas que sangue deixaste, ó filha da amargura! Flores são tuas lágrimas, e do céu me diz se os perfumes delas não valem mais aos pés do teu Deus que as preces de muita devoção que morre santificada pelo mundo, e cujo cheiro de santidade não passa do olfato hipócrita ou estúpido dos mortais.” (pag 107)

O narrador da obra é onisciente intruso, o que pode ser observado em vários momentos do romance. Nos trechos abaixo podemos observar alguns momentos de onisciência do narrador:

“’Será aquela?, perguntou Mariana ao seu coração, que palpitava. ‘Se eu fosse amada como ela!…’” (pag 83)

“(…)era para pensar nas feições da amada do seu hóspede, e dizer, como em segredo, ao seu coração: ‘Não lhe bastava ser fidalga e rica: é, além de tudo, linda como nunca vi outra!’ E o coração da pobre moça avergando ao que a consciência lhe ia dizendo, chorava.” (pag.85) 

“O acadêmico parou, e ouviu a voz íntima que lhe dizia: ‘O teu anjo da guarda fala pela boca daquela mulher, que não tem mais inteligência que a do coração, alumiado pelo seu amor.’” (pag 89)

Nos exemplos abaixo, percebe-se a intrusão do narrador, através de momentos de digressão na obra.

“(…) Nos romances todas as crises se explicam, menos a crise ignóbil da falta de dinheiro. Entendem os novelistas que a matéria é baixa e plebeia. O estilo vai de má vontade para coisas rasas.(…)” (pag 72-73)

“(…) Nas máximas aflições, nas derradeiras horas do coração e da vida, é grato ainda sentir-se amado quem já não pode achar no amor diversão das penas, nem soldar o último fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do coração humano, seja o que for, no amor que nos dão é que nós graduamos o que valemos em nossa consciência.” (pag 76)

Outra particularidade do narrador de Amor de Perdição é o narratário, que se dirige às leitoras, como podemos observar nas passagens abaixo:

“Não desprazia, portanto, o amor de Mariana ao amante apaixonado de Teresa. Isto será culpa no severo tribunal das minhas leitoras; mas, se me deixam Ter opinião, a culpa de Simão Botelho está na fraca natureza(…)” (pag 76)

“— E Teresa?
Perguntam a tempos, minhas senhoras, e não me hei de queixar se me arguirem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menos porte.” (pag 107)

Além deste narrador, há um segundo que aparece em um determinado momento do romance e que é um narrador testemunha. Trata-se de Ritinha, irmã mais nova de Simão Botelho, que conta, através de uma carta, o que aconteceu com seu irmão na prisão e como ele reagiu à tentativa de ajuda de sua mãe, dona Rita Preciosa:

“Já lá vão cinquenta e sete anos, e ainda me lembro, como se fossem ontem passados, os tristes acontecimentos da minha mocidade. Não sei como é que tenho hoje mais clara a memória das coisas da infância. (…)” (pag 100-101)

O tempo que transcorre no romance é bem determinado, pois conta a história de amor dos jovens que se conheceram com quinze anos e morreram com dezoito, portanto, tudo acontece em três anos. Entretanto, há momentos em que a ordem cronológica é quebrada, ocorrendo analepses. Isso ocorre quando o narrador conta alguma história que ocorreu anteriormente ao romance de Teresa e Simão.

Os espaços são variados, e os principais são: a casa de Simão; a casa de Teresa; a cidade onde os dois moram; Coimbra, onde o rapaz estuda; a casa do pai de Mariana; os dois conventos onde a moça é internada, a prisão em que Simão fica e a nau onde o jovem morre e Mariana suicida-se. Observa-se que, embora seja uma história de amor, há muitos espaços de opressão, como os conventos e a prisão. Essa abundância de espaços deprimentes colabora para passar ao leitor a sensação de um amor que, embora bonito, é maldito porque destrói os amantes.

A obra é primorosa e mostra-nos o papel importante da literatura em nossas vidas no momento em que nos chama a atenção para os problemas da existência, fazendo-nos refletir sobre ela. Parece-nos natural que dois jovens amantes vivessem felizes para sempre, mas o amor, tão grandioso, algumas vezes é a perdição de quem ama (como no caso de Inês de Castro. Mas isso é assunto para outro dia). 










Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco: o lado deprê do Romantismo - Editora Martin Claret

O Realismo em O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós - Editora Martin Claret

O Realismo é um movimento que surge na França, em meados do século XIX, como contraponto ao Romantismo, combatendo as idealizações do sublime (o Amor, o Ódio, a Justiça, etc.) e o embelezamento fantasioso da realidade. Tem como pressuposto histórico a Revolução Industrial, pois através dela a ciência e a tecnologia passam a ter um papel preponderante e a sociedade começa a apresentar-se extremamente materialista. 

No mesmo período, a concepção bíblica da origem do homem é abalada pela teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, segundo a qual os seres evoluem em um processo de seleção natural em que somente os mais fortes, e com mais capacidade de adaptação, sobrevivem. Essa teoria, acompanhado do Positivismo e do Determinismo, representa o substrato ideológico do Realismo. De acordo com a concepção positivista, o artista é alguém que se volta para o social em detrimento do individual. É um observador. Já o Determinismo, sugere que tudo pode ser explicado através de causas bioquímicas, biológicas, físicas, químicas, etc., que determinam o que será o ser humano. O escritor realista tenta comprovar as teses de raça, meio e momento histórico, escrevendo sobre a sua época e o seu lugar. O Realismo preocupa-se com o “aqui e agora”.

Para os realistas, a existência deve ser encarada fria e objetivamente, sem a intromissão do autor, e os fatos devem ser mostrados como são, comprometidos com a verdade, fazendo oposição ao idealismo romântico. As obras realistas devem ser contemporâneas, descrevendo o homem da época com seus conflitos. O protagonista não é nem o herói nobre, nem o burguês atormentado, mas sim o homem comum, entediado. O escritor realista busca, não só descrever a realidade, mas também interpretá-la. Há predomínio da razão e da observação sobre o sentimento e a imaginação, não havendo espaço para o fantástico, o sobrenatural, etc. Os realistas preocupam-se bastante com a forma, usando uma linguagem clara para serem compreendidos, com poucas metáforas e pouca observância das regras gramaticais. Para esses escritores, o relato fiel e minucioso das personagens é mais importante do que o próprio mito.

Eça de Queirós é um dos principais escritores portugueses adeptos do Realismo. Em 1865, faz parte do grupo de estudantes de Coimbra que, sob o comando do jovem poeta socialista Antero de Quental, luta contra o já decrépito espírito romântico, simbolizado pelo velho e cego escritor Antonio Feliciano de Castilhos.

Em 1871, realizam-se as famosas Conferências do Cassino Lisbonense, em que um público jovem aplaude com entusiasmo palestras radicais, republicanas, positivistas, socialistas e antiromânticas. Eça fala sobre O Realismo como nova expressão da arte e obtém enorme repercussão. Após formar-se, dedica-se à vida diplomática, servindo em Cuba, na Inglaterra e na França. É desses países que envia seus romances a Portugal, sacudindo, assim, o marasmo intelectual desse país.

Dentre as principais obras de Eça está O crime do padre Amaro, que representa uma crítica violenta ao celibato e à vida da província, marcada pela falsa devoção e pela hipocrisia. Amaro Vieira é filho da criada predileta de uma marquesa, que vem a adotá-lo depois que ele fica órfão. Educado por padres, torna-se sacerdote por comodismo. Nomeado para Leiria, lá encontra Amélia, filha da concubina de um padre, o cônego Dias. Educada por padres amorais e velhas devotas, Amélia é seduzida por Amaro.

As beatas e padres são apresentados de forma humorística e sarcástica pelo narrador, mas os outros membros da sociedade de Leiria não são menos ridículos: o jornalista Agostinho Pinheiro, o corrupto Gouveia Ledesma e Carlos, o burguês reacionário.

Depois de romper a relação com um noivo ciumento e desconfiado, Amélia torna-se amante do padre Amaro. Sob o pretexto de tentarem a recuperação de uma paralítica, os amantes encontram-se seguidamente. Amélia engravida e é obrigada a mudar-se. Ela morre depois que lhe tiram o filho, que é entregue a Carlota, uma aborteira, contratada por Amaro. O menino vem a morrer de forma ambígua, embora Carlota alegue morte natural.

Observa-se, no breve resumo acima, a presença das principais características do Realismo. Percebe-se facilmente que Amaro não lembra nem de longe o herói idealizado dos românticos, pois é um homem fraco, que se acomodou, por conveniência, em uma situação à qual não escolheu. Vivia atormentado por desejos da carne e encarava o celibato cinicamente. Amaro não constitui uma exceção na obra, já que o clero se apresenta corrompido e os padres vivem naturalmente em pecado sem nenhuma culpa. Veja-se na passagem abaixo da obra: "Fechou de vagar a cancela, subiu à cozinha a acender o seu candeeiro; como as ruas estavam molhadas da chuva da manhã, trazia ainda galochas de borracha; os seus passos não faziam rumor no soalho; ao passar diante da sala de jantar sentiu diante do quarto da S. Joaneira, através do reposteiro de chita, uma tosse grossa; surpreendido, afastou sutilmente um lado do reposteiro e, pela porta entreaberta, espreitou. — Oh, Deus de Misericórdia! A S. Joaneira, em saia branca, atacava o colete; e, sentado à beira da cama, em mangas de camisa, o cônego Dias resfolegava grosso!" (p. 80)

Como se pode observar este é o momento em que Amaro descobre que o cônego Dias tem um envolvimento amoroso com a S. Joaneira. Amaro demonstra-se horrorizado, porém, hipocritamente, já nutre desejos carnais pela jovem Amélia e, como todo herói realista, demonstra em várias passagens os seus conflitos em razão de tais sentimentos, como se pode constatar abaixo, quando o jovem padre sente ciúmes de Amélia com o noivo: "Odiou-a então, e o seu vestido afogado, e a sua honestidade! A estúpida, que não percebia que ao pé dela, sob uma negra batina, uma paixão devota a espreitava, a seguia, tremia e morria de impaciência! Desejou que ela fosse como a mãe — ou pior, toda livre, com vestidos garridos, uma cuia impudente, traçando a perna e fitando os homens, uma fêmea fácil como uma porta aberta…" (p. 83)

Nota-se que a preocupação de Eça em, O crime do padreAmaro, é denunciar e criticar a realidade de um clero corrompido, o que confirma a natureza realista da obra. Suas personagens falsas e interesseiras, absolutamente humanas, são tipicamente realistas e não se aproximam em nenhum momento dos seres moralmente perfeitos das obras românticas. São absolutamente desprovidas de grandeza de caráter, o que pode ser facilmente comprovado na forma egoísta e desumana com que o jovem casal, Amaro e Amélia, tratam a pequena deficiente Totó, filha do sineiro. A menina, para eles não representava nada, apenas a usavam para poderem viver o seu romance.

A narrativa é rica em minúcias e preocupa-se em transmitir uma mensagem, em provar uma tese, o que, de certa forma, consegue, pois o autor não deixa dúvidas de que, sob o seu ponto de vista, a Igreja é uma instituição falida, tanto pela mediocridade e superficialidade das beatas, quanto pela forma como os padres se utilizam de seu poder de confessores para manipularem as pessoas. Além disso, são criaturas tão capazes de sentimentos mesquinhos quanto qualquer outra.

Ao princípio, para consolar seu despeito, dizia ligeiramente mal da S. Joaneira, provocando, animando o coadjutor (que era de Leiria) a contar os escândalos da Rua da Misericórdia. O coadjutor, por servilismo, tinha sorrisos mudos, repassados de perfídia. (p. 107)

Mas o que o encantava era que nem as velhas, nem os padres, ninguém da sacristia, suspeitava os seus rendez-vous com Amélia. Aquelas visitas à Totó tinham entrado nos costumes da casa; chamavam-lhe ‘as devoções da pequena’; e não a interrogavam pelo princípio beato que as devoções são um segredo que se tem com Nosso Senhor. (p. 248)

Andava agora aterrada: viera-lhe a ideia que Deus estabelecera ali, ao lado do seu amor com o pároco, um demônio implacável para a escarnecer e apupar. Amaro, querendo-a tranquilizar, dizia-lhe que o nosso Santo Padre Pio XII, ultimamente, declarara pecado crer em ‘pessoas possessas’… (p.254)

Como se pode observar o ambiente clerical era, segundo a denúncia de Eça, contaminado pelas maldades e fraquezas humanas.




REFERÊNCIAS


QUEIRÓS, Eça de. Ocrime do padre Amaro. Portugal: Europa-América, sd.
ARAÚJO, Homero e FISCHER, Luís Augusto. Literatura Portuguesa. Porto Alegre: Novo Século, 1999.






http://leituras-compartilhadas.blogspot.com.br/2015/08/aulularia-de-plauto-e-o-avarento-de.html