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Ao luar - Conto

Ao luar

A poça d’água na calçada reflete a lua cheia, insana, desvairada. Os jovens caminham sem direção, mãos dadas, sentindo o aroma embriagador e úmido da noite, fazendo-os esquecer a fome. Já não são mais os mendigos que vagam pelas ruas atrás de um alimento qualquer. Já não são mais os fantasmas ignorados por uns, temidos por outros. São rei e rainha, lobo feroz e sua fêmea no cio. O roçar delicado dos braços dá início à dança que anuncia o ritual sagrado. Seguem, lado a lado, em busca de algo que não é dito, mas é desejado. Ele sugere a praça. Ela aceita. A encontram deserta, mas povoada de encantamentos. O farfalhar das árvores e o guizalhar dos grilos harmonizam-se, compondo a mais bela melodia que já ouviram. A moça, entorpecida, sente o corpo leve do rapaz sobre o seu, a mão dele deslizando sobre a sua magreza. Sem acreditar, ouvem a voz do homem fardado que os observa, de pé, com olhos ameaçadores. Se não tomarem jeito, serão levados “em cana”. Levantam-se e seguem a caminhada noturna.