
A poça
d’água na calçada reflete a lua cheia, insana, desvairada. Os
jovens caminham sem direção, mãos dadas, sentindo o aroma
embriagador e úmido da noite, fazendo-os esquecer a fome. Já não
são mais os mendigos que vagam pelas ruas atrás de um alimento
qualquer. Já não são mais os fantasmas ignorados por uns, temidos
por outros. São rei e rainha, lobo feroz e sua fêmea no cio. O
roçar delicado dos braços dá início à dança que anuncia o
ritual sagrado. Seguem, lado a lado, em busca de algo que não é
dito, mas é desejado. Ele sugere a praça. Ela aceita. A encontram
deserta, mas povoada de encantamentos. O farfalhar das árvores e o
guizalhar dos grilos harmonizam-se, compondo a mais bela melodia que
já ouviram. A moça, entorpecida, sente o corpo leve do rapaz sobre
o seu, a mão dele deslizando sobre a sua magreza. Sem acreditar,
ouvem a voz do homem fardado que os observa, de pé, com olhos
ameaçadores. Se não tomarem jeito, serão levados “em cana”.
Levantam-se e seguem a caminhada noturna.