quinta-feira, 31 de março de 2016

Obra Completa de Lila Ripoll: uma preciosidade para os amantes de poesia - Editora Movimento

Lila Ripoll está, na minha opinião, entre as melhores poetisas de língua portuguesa. Há algum tempo, a Editora Moderna lançou a sua Obra Completa, a qual recomendo aos amantes de boa poesia, e da qual extrairei três poemas para comentar (os poemas estarão ao final de cada comentário). Lila Ripoll nasceu em Quarai, Rio Grande do Sul, no ano de 1905 e morreu em Porto Alegre, em 1967. Formou-se em Piano no Conservatório de Música, atual Instituto de Artes da UFRGS, na capital gaúcha. Na década de 1930 foi diretora do Departamento Cultural do Sindicato dos Metalúrgicos, onde militou pelo Partido Comunista, além de integrar o gabinete do Secretário da Educação Coelho de Souza. Em 1938 ocorreu a publicação da obra De Mãos Postas, seu primeiro livro de poesia. Entre 1945 e 1955 colaborou na revista literária “A Província de São Pedro” e no jornal “A Tribuna”. Foi ainda membro do comitê editorial da Revista “Horizonte”. Em 1950, foi candidata a deputada estadual pelo Partido Comunista. Participou, em 1951, do grupo Partidários da Paz, vinculado ao Conselho Mundial da Paz, com Graciliano Ramos, Dyonelio Machado e Laci Osório. Ainda em 1951, recebeu o prêmio Pablo Neruda da Paz, pelo livro Novos Poemas, em Praga. Foi presa após o golpe militar de 1964, e libertada em seguida por motivo de doença. Sua obra poética inclui os livros Por quê? (1947), Primeiro de Maio (1954), O Coração Descoberto (1961) e Águas Móveis (1967), entre outros. 

Os poemas de Lila Ripoll  possuem em comum o fato de tratarem da existência de forma melancólica e desesperançada. Essa característica pode ser percebida, não somente na escolha dos temas abordados, mas, também, na forma como esses textos estruturam-se. A poesia de Lila Ripoll vincula-se à segunda geração do modernismo e é profundamente marcada pelo engajamento político. Entretanto, não foi somente a política que serviu de tema para o seu trabalho. Na obra Por quê?, por exemplo, percebe-se uma atenção completamente voltada para questões de ordem mais existencial, o que pode ser comprovado pelo próprio título do livro, que remete a perguntas que não poderão ser respondidas. Lendo-se os poemas que compõem Por quê?, pode-se observar que todos possuem o mesmo tom de angústia acerca da realidade vivida, causada pela constatação de que esta não poderá ser alterada. 

No poema “Sem solução” o eu-lírico inicia mencionando o final de um sonho. Desde o começo do poema o leitor é levado a ter a impressão de um certo torvelinho, de acontecimentos que se sucedem de forma atabalhoada, sentimento reforçado pelo fato de a quinta estrofe, além de sugerir uma quebra, ser concluída com a palavra turbilhão. Aqui, pode-se pensar em uma vida sem esperanças para o futuro, ideia fortalecida pelo contraste entre a sétima estrofe, na qual o eu-lírico refere uma espera por um dia ensolarado, e a última, repetição da quarta, na qual “um vento sem precedentes” escurece o pensamento. Se recordarmos que a quarta estrofe antecede a ruptura apresentada na quinta (Perdi a palavra,/ perdi o sentido,/ perdi meu sonho/ no turbilhão), pode-se concluir que, realmente, não há solução para o eu-lírico, pois essa última estrofe antecederá nova crise.


SEM SOLUÇÃO
Caiu meu sonho,
dos lábios tristes,
numa palavra
que se perdeu...

Tenho a voz leve,
sem ressonâncias,
e existe sonho
maior que o meu.

Passaram bardos,
passaram Santos,
heróis passaram,
de ouvido atento.

Mas veio um vento
sem precedentes,
escurecendo
meu pensamento.

Perdi a palavra,
perdi o sentido,
perdi meu sonho
no turbilhão.

E agora vivo
sondando a terra
e os elementos,
sem solução.

Espero os ventos,
escuto a chuva,
aguardo a hora
do sol nascer.

Inutilmente
procuro um nome,
se até o sentido
fui esquecer.

Passaram bardos,
passaram Santos,
heróis passaram
de ouvido atento.

Mas veio um vento
sem precedentes,
escurecendo
meu pensamento.


Igualmente melancólico e não menos pessimista é o poema “… E esperanças para quê?”. As reticências no início e no final do título fazem pensar que o momento atual, em que não se tem esperanças, situa-se entre um passado tristonho e um futuro que não anuncia felicidade. As reticências aparecem novamente ao final do texto, após a pergunta “Que importa, se num dia transitório, no frio de um mundo sem termo, para sempre afundarei?…”, demonstrando que o futuro é algo incerto e angustiante, levando-nos ao encontro da morte. Além da interrogação acima mencionada, há outras que remetem, também, a uma indeterminação quanto ao que virá (“para quê?”, “de que valem?”, “para que servem?”, “que importa?”) e que reforçam a desesperança anunciada no título do poema, pois, afinal, para que tantas expectativas quando a morte é a única certeza. A terceira estrofe refere-se ao movimento cíclico da vida (“rodam, rodam”; “no girar inconstante”) reportando-nos à roda de fiar das moiras, que tecem o destino dos homens. 


...E ESPERANÇAS PARA QUÊ?…
Nem esperanças já tenho.
E esperanças para quê?
Se é tudo tão transitório,
de que valem esperanças?
pra que servem? para quê?

Brota um suspiro profundo,
que não pôde ser palavra,
e apenas dura um segundo.
O sol se funde na noite,
o dia desfaz a treva,
e gira a roda do mundo.

E rodam, rodam os homens
à procura de mais sorte.
E, no girar inconstante,
que move areias e nuvens,
correm todos para a vida
e sempre encontram a morte.

Transitória passageira
desta vida transitória,
também me deixo levar.
Rumo incerto.
Mar de escolhos.
Que importa o vento? Que importa,
se num dia transitório,
no frio de um mundo sem termo,
para sempre afundarei?...

 
O poema “Naufrágio”, apresenta o mesmo tom depressivo dos anteriores. Assim como o primeiro poema, esse exibe um predomínio de vogais fechadas, fortalecendo a percepção que temos logo no início: “uma sombra cobriu meu sonho”. No transcorrer do texto encontramos diversas palavras com o mesmo sentido sombrio desse primeiro verso: naufraga, medo, escondeu, apaga, sangue. Porém, a essas palavras se opõem outras relacionadas a aspectos mais positivos, lembrando a luta de um naufrago para manter a vida e evitar a morte. Outro elemento do poema que nos reporta a luta entre Eros e Thanatos é o seu ritmo que, ao contrário dos anteriores, que mostram uma constância, indica um movimento de onda, crescendo e voltando a diminuir, lembrando o mar. O poema é composto por três estrofes, cada uma com cinco versos. O primeiro verso de cada estrofe possui oito sílabas poéticas, o segundo tem nove, o terceiro e o quarto têm sete sílabas e o último somente três. Esse formato repete-se em todas as estrofes resultando em um efeito de “sobe e desce” que alude às ondas do mar durante um naufrágio.


NAUFRÁGIO
Uma sombra cobriu meu sonho,
desceu à terra, foi para o mar.
Vivo um pouco em cada barco
que naufraga silencioso,
sem chamar.

Um amor morou no meu peito,
cresceu sem medo, mas se escondeu.
Estou sempre em cada estrela,
que brilha um pouco e se apaga,
como eu.

Os meus braços estão quebrados,
sem ânsias novas para prender.
Rotas velas no mar alto,
levam sangue derramado,
sem morrer.

 

O que se pode constatar de comum nesses poemas é uma visão sombria da existência. Todos os três mostram um campo semântico repleto de imagens que reportam à uma postura depressiva frente à vida. Pode-se verificar que a estrutura é utilizada com bastante sabedoria para causar a impressão desejada, a de que tudo está perdido. Percebe-se que os sons, as palavras, e as relações entre os elementos que compõem o poema formam um todo harmônico e coerente que reforçam o sentido, fazendo com que não só compreendamos os textos, mas, também com que os sintamos. 

Abaixo, deixo mais dois poemas da autora:

MOMENTO
Sombras breves,
passam leves
nesta rua.

Sons partidos,
repartidos,
pelo vento.

Luz de prata
se desata
sobre o muro.

Vem da noite,
como açoite,
 uma lembrança.

Grilos chamam,
flores amam,
sobre a terra.

E há segredos,
véus de medos,
pelas almas.

Vidros de água,
rios de mágoa,
nos meus olhos.

Cicatrizes,
de infelizes
pensamentos.

Há gemidos,
retorcidos,
num sorriso.

Curta vida,
tão comprida
para os tristes!


CINZAS
Cingida por sete palmas,
descerei a terra, um dia.
Violetas roxas no peito,
fronte branca e alma fria.

Cabelos longos caídos
e arrastados pelo vento.
Em todo o corpo um espanto
e um lúcido entendimento.

Teu claro nome sonoro
entre os lábios, apertado.
Luas negras nos meus olhos.
E um segredo inconfessado.

Funestos ventos soprando,
em giros de contradanças,
do mar correrão os homens
e das ruas as crianças.

Estrelas, aves e nuvens
fugirão sem esperanças.
E o meu corpo diluído,
destruído,
derrotado,
manchará o céu de cinzas   —
das minhas desesperanças!