quarta-feira, 9 de março de 2016

Cinco poetisas que você não pode deixar de ler



Quem já não teve aquela sensação estranha, e por vezes bem desagradável, de precisar expressar algo que lhe vai na alma, e constatar que não há palavras suficientes para tal? Esse é o momento em que nasce a poesia! Através dela, tudo pode ser dito. A poesia, com todas as suas figuras de linguagem, supre as limitações da língua, na medida em que a subverte. Nem sempre os poemas são de fácil interpretação (quase nunca são!), já que o poeta opta por percorrer, não o menor e mais simples caminho entre dois pontos, mas o mais rico em possibilidades interpretativas. Ler um poema é como amar, pode até dar medo, mas sem entrega, não acontece. Deixo abaixo, uma lista de cinco das minhas poetisas preferidas. Como sempre tenho dito, nenhuma lista é perfeita e, certamente, havia várias outras que poderiam estar aqui, mas que serão mencionadas em outra oportunidade. 

Florbela Espanca
Com esta foi amor à primeira leitura. Apaixonei-me por sua poesia, ainda menina, ao ouvir uma música de Raimundo Fagner, cuja letra é um soneto de Florbela chamado Fanatismo. Deixarei, além do poema, um vídeo para quem quiser conhecer a música. Florbela é uma poetisa portuguesa, que morreu em 8 de dezembro de 1930, no dia em que completava 36 anos, após consumir uma dose excessiva de veronal. Dona de uma profunda sensibilidade, não conseguia ajustar-se a um mundo tão hostil. Para aqueles que tiverem interesse em saber mais, há um filme português que conta a sua vida. Para conhecer mais alguns de seus poemas ou baixar livros gratuitamente (livros em domínio público, sem problemas com direitos autorais), clique AQUI

Fanatismo
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."




Ana Cristina Cesar
Essa eu conheci mais tarde, já estava na faculdade.  E para ser sincera, não foi uma admiração que surgiu imediatamente. Aconteceu aos poucos, leitura após leitura, mas certamente, é uma autora que levarei comigo para sempre. Ana nasceu no Rio de Janeiro, em 1952, pertencendo ao que se chama de geração mimeógrafo, poetas da década de 1970. Fazia parte do movimento Poesia Marginal. Ana C. chegou a escrever livros de crítica literária também. Lamentavelmente, parece que esse mundo é mesmo um lugar adverso às almas sensíveis como a de Ana, pois, aos 31 anos, ela comete suicídio, nos deixando órfãos de sua poesia. 

Que desliza
Onde seus olhos estão
as lupas desistem.
O túnel corre, interminável
pouso negro sem quebra
de estações.
Os passageiros nada adivinham.
Deixam correr
Não ficam negros
Deslizam na borracha
carinho discreto
pelo cansaço
que apenas se recosta
contra a transparente escuridão.

Alice Ruiz
Foi casada com Paulo Leminski, com quem teve três filhos. Por gostar muito desse poeta, muito cedo, por curiosidade, fui atrás dos poemas de sua esposa. Logo nos primeiros contatos que tive com sua poesia, ela deixou de ser, para mim, a mulher de Leminski, para se tornar simplesmente Alice Ruiz, uma das maiores poetisas da atualidade. As primeiras publicações de suas poesias foram feitas em revistas e jornais, o primeiro de seus vários livros foi publicado somente aos 34 anos. Alice é, também, compositora. A autora mantém um site, e quem quiser visitá-lo para saber mais, clique AQUI.

Saudação da saudade
Minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida.

Aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz.
 

Ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento.

Aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim.


Cecília Meireles
Conheci na infância, no tempo da escola. Embora seja muito comum que a escola afaste algumas crianças de poetas e escritores clássicos, obrigando-as a ler antes de as seduzir com as obras, posso dizer que foi lá que o meu amor pela poesia de Cecília Meireles nasceu. O que mais me comove em sua escrita é a capacidade que ela tem de ser sutil e delicada sem deixar de ser profunda e intensa. A poetisa nasceu no Rio de Janeiro, sendo criada pela avó, pois perdeu os pais ainda na primeira infância. Além da poesia, dedicou-se à carreira de professora.

Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


Adélia Prado
Com Adélia também foi amor à primeira leitura, porém, eu já não era mais uma adolescente, como no caso de Florbela Espanca. Lembro-me de que sua habilidade em mostrar um olhar diferenciado sobre o cotidiano, sobre coisas simples que, quase sempre, passam despercebidas, simplesmente me encantou, e nunca mais deixei de ler os seus lindos poemas. Nascida em Divinópolis, além de poetisa e professora, Adélia também escreve belíssimos contos. Quem tiver interesse em conhecer mais alguns de seus poemas, clique AQUI.

Casamento
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.