quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Suspeito que somos feitos de música


Sempre desconfiei de que nossas almas são compostas por notas musicais. Alguns de nós ecoam, pela vida, como a mais suave das músicas; outros produzem um som exuberante, forte, pesado; há, ainda, os rebeldes e seus acordes dissonantes e barulhentos, enfim, as possibilidades são infinitas, como são infinitas as combinações possíveis entre as notas musicais. Cada um de nós é uma música única, sem plágios, sem nenhuma chance de cópia. Basta que paremos, que sejamos capazes de escutar o nosso próprio silêncio, porque é dele que surgirá, em um momento de pura beleza e magia poética, a nossa música interior, a música que somos, a combinação de notas da qual somos compostos.

Talvez essas notas sejam determinantes para o nosso gosto musical. Ao ouvirmos uma música especial, todos os átomos do nosso corpo vibram em perfeito equilíbrio entre alma e melodia. Os átomos dançam. Então, dançamos, ainda que estejamos parados, ainda que estejamos aparentemente imóveis. Daí vem o gosto pela dança. É desse modo que a alma se realiza, pois se identifica com as notas da melodia e se expressa através do corpo. Pelos movimentos corporais, a alma torna-se mais visível, mais concreta, mais perceptível.

Há, no entanto, um momento em que encontramos uma outra alma cujas notas possuem uma afinidade estranha com as nossas. Quando os olhos se encontram, as notas vibram. Quando as notas vibram, as almas cantam e, muitas vezes, dançam, causando uma profunda sensação de plenitude, porque já não há mais a angústia da descontinuidade, não há falta, somente a totalidade do ser. Mas é claro que um momento tao perfeito não durará para sempre. Precisamos seguir os nossos caminhos. Almas habitam corpos que vivem em um mundo concreto, que sempre nos puxará para a incompletude.

Texto originalmente publicado no Scribe