Só por hoje e para sempre, diário de Renato Russo: o humano por trás do mito - Editora Companhia das Letras


Só por hoje e para sempre
Autor: Renato Russo
Editora Companhia das Letras
Ano: 2015
Número de páginas: 168
Skoob

Que grata tarefa, ler e resenhar o livro Só por hoje e para sempre, diário de Renato Russo, que a Editora Companhia das Letras teve feliz ideia de publicar. Quem me conhece, sabe que gosto muito de Renato Russo. Talvez por isso tenha hesitado um pouco em escrever sobre esta leitura, que fiz com muito prazer. Afinal, o objetivo aqui é compartilhar leituras, e não tietar. Pois é, mas aqui estou eu, escrevendo sobre a obra Só por hoje e para sempre: diário do recomeço! E acreditem, o livro vale muito a pena, não é conversa de fã. O que foi mostrado vai muito além do mito, trazendo-nos um pouco mais do homem que foi Renato Russo. Apresenta-nos o humano por trás do mito, e aí reside todo o encanto da obra. 


Só por hoje e para sempre, diário de Renato Russo: o humano por trás do mito - Editora Nova Fronteira
No livro, conhecemos um Renato que luta para sobreviver ao alcoolismo e à dependência química. Foi escrito no período em que o músico esteve internado em Vila Serena para tratar-se da dependência. Entramos em contato com o seu mundo interior, que era riquíssimo, diga-se de passagem; com seus altos e baixos emocionais, tristezas, angústias e, também, com suas alegrias. Em um primeiro momento, pode parecer triste e, de certa forma, é, mas é também muito enriquecedor, pois, ao percebermos o humano que há no outro, nos humanizamos também.  Ao lermos as páginas do diário de Renato, vamos descobrindo um pouco mais sobre a biografia do músico e, ao mesmo tempo, vamos acompanhando a avaliação, feita por ele, das situações vividas no passado. Uma espécie de inventário que Renato fez de sua própria vida. Considero leitura obrigatória para os fãs, e recomendável para todas as pessoas. 

O projeto gráfico de Só por hoje e para sempre é fantástico, a capa é um primor, linda mesmo! Gostei muito do recurso de colocar algumas páginas com fragmentos escritos com a caligrafia de Renato, pois isso deu alma ao livro. E o melhor de tudo é que a Editora Companhia da s Letras lançará, nos próximos anos, mais textos inéditos de Renato Russo. 

Só por hoje e para sempre, diário de Renato Russo: o humano por trás do mito - Editora Nova Fronteira

Entrevista em que Renato Russo fala sobre a dependência química.





Só por hoje e para sempre, diário de Renato Russo: o humano por trás do mito - Editora Nova Fronteira


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Número Zero, mais uma pérola de Umberto Eco - Editora Record

Número Zero, mais uma pérola de Umberto EcoNúmero Zero, o mais recente romance de Umberto Eco, lançado no Brasil pela Editora Record, apresenta-nos os bastidores da redação de um jornal. Falando assim, pensamos logo em um veículo de informação. Porém, informar não é propriamente a proposta desse jornal. Trata-se daquilo que costumamos chamar de imprensa marrom. O jornal tem como principal objetivo promover a difamação. Sua equipe de redatores é composta por tipos curiosos, com características bem peculiares, e a principal delas, comum a todos os componentes do grupo, é o fato de serem todos frustrados, não só na profissão, mas na vida. Isso talvez explique a razão pela qual se submetem a um trabalho tão degradante.

Número Zero, mais uma pérola de Umberto EcoO livro é narrado em primeira pessoa e inicia pelo final, com o nosso protagonista apresentando-se como um fracassado que, perseguido por alguém, sente medo de morrer. A partir do segundo capítulo ele começa a contar a razão desse medo, que trata de uma trama que data do fim da Segunda Guerra Mundial envolvendo um suposto falso Mussolini. No desenrolar da trama, não temos a noção exata do que é verdadeiro  e do que é paranoia de Braggadocio, personagem que investiga a suposta conspiração. O fato é que, em um dado momento, surge um cadáver e um documentário ratificando a tal teoria da conspiração. O que nos leva à fuga de um casal apaixonado. 

Por vezes, o livro torna-se um pouco maçante, principalmente nas passagens em que Braggadocio narra as suas descobertas e as suas suposições a cerca da tal teoria. No entanto, um leitor atento perceberá, facilmente, que há um propósito para isso, o que só faz enriquecer a obra. Obviamente, não direi qual o propósito. Deixarei o prazer da descoberta para o leitor. Direi apenas que vale muito o tempo gasto na leitura de cada página de 
Número Zero, mais uma pérola de Umberto Eco.

Em entrevista, Umberto Eco fala sobre Número Zero:




Número Zero, mais uma pérola de Umberto Eco - Editora Record


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Análise do poema "A rispidez da floresta", de Marly de Oliveira, segundo a teoria de Roman Ingarden

Análise do poema "A rispidez da floresta", de Marly de Oliveira, segundo a teoria de Roman Ingarden
Roman Ingarden baseou sua teoria de análise da obra de arte literária na fenomenologia de Husserl, segundo a qual tudo o que existe é reduzido à consciência, pois é somente através dela que percebemos e conhecemos o mundo. Nessa perspectiva, a consciência seria aquilo que dá sentido a tudo o que existe. A interpretação ingardiana é voltada totalmente para a obra literária, desconsiderando tudo o que for externo a ela, como biografia do autor, subjetividade do leitor, elementos psicológicos ou o contexto histórico. A análise é absolutamente intrínseca, voltada para a estrutura do texto, para a obra em si, utilizando-se, para isso, de quatro estratos: fônico, das unidades de significação, das objetividades apresentadas e dos aspectos esquematizados. É conveniente observar que, embora perceba-se os quatro estratos presentes na obra, não é possível que se faça uma análise de cada um isoladamente sem que a unidade do texto seja prejudicada. Como lembra Salvatore D’Onófrio, “essa estratificação só existe graças ao esforço analítico do crítico, pois o texto é percebido pelos sentidos e pela consciência, à primeira vista, como um todo orgânico, uma forma homogênea”.

No poema “A rispidez da floresta, que integra o livro O Mar de Permeio, de Marly de Oliveira, pode-se perceber de que forma uma observação conjunta dos estratos pode contribuir para a qualidade da leitura, dando-nos uma possível direção para chegarmos à significação do texto. Composto por uma única estrofe de quinze versos livres e encadeados, formando um todo semântico, o poema de Oliveira não apresenta rimas nem métrica rígida. Não há repetições de palavras, o que nos dá uma impressão de objetividade, pois não repetindo, não anda em círculos. Essa ideia é reforçada nos versos sete e oito, “que entrevê um corredor/ sem curvas de labirinto”, fazendo-nos pensar em um caminho com começo, meio e fim, ou seja, uma trajetória a ser seguida. Percebe-se uma presença maior de substantivos do que de verbos, levando-nos a pensar em algo sólido e estável, confirmado pela enumeração do verso número seis, “de terra, de cascalho, de carvalho”, já que esses três elementos possuem as características da solidez e da permanência através dos tempos. Além de aparecerem menos verbos, demonstrando que o poema não transmite o sentimento de ação, mas sim de fixidez, dois desses verbos são “habitar/construir” (verso nove), confirmando essa ideia. Há, ainda, outros elementos que nos levam a seguir essa linha de pensamento, que seriam as aliterações em “s” e “r”. Essas duas consoantes quando pronunciadas podem propagar-se por longo tempo no ar, fazendo-nos pensar em algo que dura. A linguagem utilizada pelo eu-lírico é direta e “seca”, demonstrando dureza e solidez, o que podemos observar através de palavras como: rispidez, secos, mudez, cascalho, construir, casa, aguda, cortante, certeira, que dão o tom do poema. Percebe-se paralelismo nos versos 1/2 e 11/12, enumerações nos versos 6 e 15 e hipérbato no verso 4. Há variações no ritmo do poema levando-nos a pensar que, embora o caminho percorrido seja algo certo, demonstrado pelos elementos citados anteriormente, há dificuldades a serem superadas no decorrer do trajeto, o que talvez contribua para o olhar “mais seco”, para a ferida que “cria casca”.

Pensa-se na floresta como a alegoria de uma vida difícil, um caminho percorrido com sofrimento, talvez por alguém com idade avançada (por isso “viver com menos pressa”). O sofrimento mudo, solidificado, transformado em terra, cascalho, carvalho, leva o eu-lírico a buscar segurança em “habitar/construir uma outra casa” onde seja possível “acender uma fogueira” para afastar ataque de animais ameaçadores na “noite brava, metáfora de todos os perigos pelos quais se passa e dos medos que temos de tudo o que é desconhecido. O texto apresenta-nos uma floresta, em um plano literal, que representa a vida, em um plano figurativo. 

Abaixo, o poema.

A rispidez da floresta 
Os olhos estão mais secos
o viver com menos pressa
a ferida cria casca e aquilo
que dentro leva nem mais tem
nome se cala com aquela mudez
de terra de cascalho de carvalho,
que entrevê um corredor
sem curvas de labirinto,
onde se pode habitar/construir
uma outra casa
acendendo uma fogueira
afastando todo ataque
de lobos na noite brava,
de posse de alguma coisa
aguda cortante certeira.


Análise do poema "A rispidez da floresta", de Marly de Oliveira, segundo a teoria de Roman Ingarden

Pergunte ao poetinha... pergunte a Vinicius de Moraes


"Mas, afinal, o querem as mulheres? Pergunte aos poetas." Palavras de Sigmund Freud. Não sei até que ponto essa afirmação é verdadeira na prática, mas convenhamos, não há nada que descreva melhor e toque mais profundamente a alma de uma mulher do que um belo poema. E disso, o poetinha entendia! Seus poemas elevavam a mulher a um status de deusas, mexendo com o imaginário feminino, mostrando a musa como uma mulher desejada, admirada, para falar o mínimo.Vinicius de Moraes deixou-nos, entre canções e livros, uma obra vasta. Recomendo aos iniciantes a sua Antologia Poética, por tratar-se de um livro que dá uma visão geral de todo o seu trabalho. 


Abaixo, deixo alguns de meus poemas preferidos:

Soneto do corifeu


A mulher que passa 
Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

Soneto da separação

 Soneto da fidelidade

Para nós que gostamos de escrever



É muito comum, entre as pessoas que já foram seduzidas pela leitura, desenvolver, também, o gosto pela escrita. Parece-nos fácil em um primeiro momento, pois basta ter uma história para contar. Ah, mas isso é moleza! É só desenvolver a criatividade, e pronto! Será? 

Não tarda para que se perceba que, embora a criatividade seja, de fato, muito importante, está muito longe de ser tudo para quem quer escrever minimamente bem. Conforme vamos lendo e amadurecendo como leitores, intuímos que há algo mais, além da história que se conta. Começamos a perceber a diferença entre forma e conteúdo. Afinal, estamos falando de arte literária, e a forma é de extrema importância na arte. 

Mas o que é esse "algo mais"? É o que se chama, na teoria literária, de literariedade. É o que faz de um texto, uma obra de arte. Poxa! Mas então escrever não é para mim, é coisa de artista! Bem, algumas pessoas creem mesmo nisso. Acreditam que escritor é alguém escolhido pelos deuses, com um dom especial. Mas há, em contrapartida, os que defendem que todos podemos, com um bocado de empenho e dedicação, desenvolver as habilidades da escrita. 

E é para estes, justamente, que selecionei alguns vídeos do Youtube, dos quais gosto muito. Os vídeos dão dicas excelentes para aqueles que sonham em se tornar escritores. Inclusive dicas de livros. Espero que os vídeos sejam úteis a todos como foram para mim.













Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco: o lado deprê do Romantismo - Editora Martin Claret

Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco: o lado deprê do Romantismo - Editora Martin Claret
No final do século XVIII surge um novo público leitor com novas exigências. O público burguês, possuidor de escassos conhecimentos literários, prefere uma linguagem mais prosaica e direta, mais abundante que sóbria, e não se importa com convenções literárias. Nesse contexto nasce o Romantismo, movimento literário do qual Camilo Castelo Branco, autor da obra Amor de Perdição, faz parte. 

A obra narra o amor infeliz de dois jovens, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque. Os dois vivem uma profunda paixão que não pode se realizar por causa da inimizade entre as duas famílias. O pai de Teresa, Tadeu de Albuquerque, pretende casar a filha com um primo, Baltasar Coutinho. Diante da recusa da moça em obedecer, pai e primo tratam de interná-lá em um convento. Simão e Teresa comunicam-se por cartas. Simão, ao tentar encontrá-la no convento, enfrenta o pai da moça e Baltasar, o que desencadeia o conflito que termina com Simão matando o primo de Teresa. Depois de se entregar à justiça, Simão é condenado à morte e, depois, ao exílio na Ásia por dez anos. Atormentados pelo sofrimento, os dois jovens adoecem, Teresa no convento e Simão na prisão. Ela morre quando ele parte para o degredo, ele morre a bordo do navio que o leva para a Ásia. Ao lançarem seu cadáver ao mar, Mariana, sua amiga fiel, que lhe dedicava ardente amor platônico, suicida-se.

Há, na obra, um predomínio da emoção sobre a razão, uma das características do Romantismo. Os amantes entregam-se à paixão incondicionalmente e, até mesmo, morrem por ela. Simão é o típico herói romântico, que não racionaliza suas atitudes, age conforme seus instintos. Sua amada e a amiga Mariana também encarnam as heroínas românticas, já que são capazes de viver e de morrer por um amor. Outra característica do Romantismo que podemos perceber na obra é o culto ao passado, já que Camilo Castelo Branco viveu entre 1825 e 1890, e a história narrada no romance tem início em 1779. Há, ainda, o distanciamento da obra romântica com relação à realidade, o que pode ser evidenciado pela imagem idealizada de mulher apresentada pelo narrador:

“(…) Muito há que me reluz e voeja, alada como o ideal querubim dos santos, nesta minha quase escuridade, aquela ave do céu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o rastilho de sangue que ela deixou na terra. Mais lágrimas que sangue deixaste, ó filha da amargura! Flores são tuas lágrimas, e do céu me diz se os perfumes delas não valem mais aos pés do teu Deus que as preces de muita devoção que morre santificada pelo mundo, e cujo cheiro de santidade não passa do olfato hipócrita ou estúpido dos mortais.” (pag 107)

O narrador da obra é onisciente intruso, o que pode ser observado em vários momentos do romance. Nos trechos abaixo podemos observar alguns momentos de onisciência do narrador:

“’Será aquela?, perguntou Mariana ao seu coração, que palpitava. ‘Se eu fosse amada como ela!…’” (pag 83)

“(…)era para pensar nas feições da amada do seu hóspede, e dizer, como em segredo, ao seu coração: ‘Não lhe bastava ser fidalga e rica: é, além de tudo, linda como nunca vi outra!’ E o coração da pobre moça avergando ao que a consciência lhe ia dizendo, chorava.” (pag.85) 

“O acadêmico parou, e ouviu a voz íntima que lhe dizia: ‘O teu anjo da guarda fala pela boca daquela mulher, que não tem mais inteligência que a do coração, alumiado pelo seu amor.’” (pag 89)

Nos exemplos abaixo, percebe-se a intrusão do narrador, através de momentos de digressão na obra.

“(…) Nos romances todas as crises se explicam, menos a crise ignóbil da falta de dinheiro. Entendem os novelistas que a matéria é baixa e plebeia. O estilo vai de má vontade para coisas rasas.(…)” (pag 72-73)

“(…) Nas máximas aflições, nas derradeiras horas do coração e da vida, é grato ainda sentir-se amado quem já não pode achar no amor diversão das penas, nem soldar o último fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do coração humano, seja o que for, no amor que nos dão é que nós graduamos o que valemos em nossa consciência.” (pag 76)

Outra particularidade do narrador de Amor de Perdição é o narratário, que se dirige às leitoras, como podemos observar nas passagens abaixo:

“Não desprazia, portanto, o amor de Mariana ao amante apaixonado de Teresa. Isto será culpa no severo tribunal das minhas leitoras; mas, se me deixam Ter opinião, a culpa de Simão Botelho está na fraca natureza(…)” (pag 76)

“— E Teresa?
Perguntam a tempos, minhas senhoras, e não me hei de queixar se me arguirem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menos porte.” (pag 107)

Além deste narrador, há um segundo que aparece em um determinado momento do romance e que é um narrador testemunha. Trata-se de Ritinha, irmã mais nova de Simão Botelho, que conta, através de uma carta, o que aconteceu com seu irmão na prisão e como ele reagiu à tentativa de ajuda de sua mãe, dona Rita Preciosa:

“Já lá vão cinquenta e sete anos, e ainda me lembro, como se fossem ontem passados, os tristes acontecimentos da minha mocidade. Não sei como é que tenho hoje mais clara a memória das coisas da infância. (…)” (pag 100-101)

O tempo que transcorre no romance é bem determinado, pois conta a história de amor dos jovens que se conheceram com quinze anos e morreram com dezoito, portanto, tudo acontece em três anos. Entretanto, há momentos em que a ordem cronológica é quebrada, ocorrendo analepses. Isso ocorre quando o narrador conta alguma história que ocorreu anteriormente ao romance de Teresa e Simão.

Os espaços são variados, e os principais são: a casa de Simão; a casa de Teresa; a cidade onde os dois moram; Coimbra, onde o rapaz estuda; a casa do pai de Mariana; os dois conventos onde a moça é internada, a prisão em que Simão fica e a nau onde o jovem morre e Mariana suicida-se. Observa-se que, embora seja uma história de amor, há muitos espaços de opressão, como os conventos e a prisão. Essa abundância de espaços deprimentes colabora para passar ao leitor a sensação de um amor que, embora bonito, é maldito porque destrói os amantes.

A obra é primorosa e mostra-nos o papel importante da literatura em nossas vidas no momento em que nos chama a atenção para os problemas da existência, fazendo-nos refletir sobre ela. Parece-nos natural que dois jovens amantes vivessem felizes para sempre, mas o amor, tão grandioso, algumas vezes é a perdição de quem ama (como no caso de Inês de Castro. Mas isso é assunto para outro dia). 










Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco: o lado deprê do Romantismo - Editora Martin Claret

Breve comentário sobre o texto "Quem forma o professor leitor" de Luzia de Maria



Ao organizar alguns textos antigos guardados, encontrei um do qual gostei muito de ler, há alguns anos. O texto chama-se “Quem forma o professor leitor?”, De Luzia de Maria. Ao lê-lo, recordei-me do meu primeiro semestre no curso de Letras. A primeira aula de Teoria da Literatura, foi extremamente marcante, pois ao dizer-nos que teríamos de ler Édipo Rei, de Sófocles, a professora resolveu contar-nos a história antes. Isso foi feito com tal emoção por parte dela, que emocionou, também, a nós, alunos, que escutávamos. Ao terminar a aula, fomos nós, colegas, conversando no ônibus sobre a história e pude comprovar que a boa impressão foi geral. No outro dia, fui a biblioteca pegar o livro de Sófocles emprestado e, lá chegando, encontrei três colegas que também foram retirá-lo, todos interessadíssimos em ler a obra. 

Mais tarde, o mesmo aconteceu em uma aula de Literatura Ocidental, em que a professora nos contou duas histórias, uma de Moacyr Scliar (História Porto-Alegrense) e a outra de Marina Colasanti (Entre as folhas do verde O.). Percebia-se o prazer da mestra ao contar as histórias e isso fazia com que os alunos escutassem fascinados. A partir dessas duas experiências, decidi que gostaria de mostrar às pessoas (em especial aos meus alunos) o quanto a literatura pode fazer-nos feliz. Isso foi bem antes do boom dos blogs literários, mas a ideia de compartilhar leituras já estava latente

Essas experiências ficaram em um nível muito emocional. Ao reler os textos contados pelas professoras, sinto novamente aquele imenso prazer causado naquele primeiro momento, mas custei um pouco a pensar sobre isso de forma puramente racional. O texto da doutora Luzia de Maria forneceu-me subsídios para organizar esses sentimentos em forma de ideias e creio que isso tem me acompanhado na minha trajetória de leitora e, sobretudo, de professora. A partir dos argumentos apresentados pela autora foi provado que as experiências vivenciadas por mim e meus colegas não são um fato isolado. Podemos nós, também, com o nosso entusiasmo por um determinado livro, influenciar positivamente outras pessoas, contribuindo para a sua formação leitora. 

Mario Quintana: a força da simplicidade



"Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu." 

Mario Quintana, homem espirituoso, poeta de uma singeleza profunda. Sempre encontrava a forma mais simples e bela de falar sobre coisas que, embora importantes, acabamos por nos acostumar. Quintana não precisava de grandes temas para fazer um poema. Uma formiguinha que atravessasse uma folha de papel em branco era mais do que suficiente. 

Alegretense apaixonado por Porto Alegre, cidade onde viveu até sua morte, em 1994, fazia questão de não esconder essa paixão, que, por sinal, era correspondida pelos porto-alegrenses. Era comum (quem viveu na época sabe!) que encontrássemos o velho poeta caminhando, com seus passos lentos, pela Rua dos Andradas, carinhosamente chamada pelos gaúchos de Rua da Praia. 

Costumamos dizer que quando uma pessoa nos deixa, vira uma estrela. Quintana já foi uma estrela em vida! Hoje ele se incorporou à brisa de sua tão amada Porto Alegre e vive a acariciar-nos o rosto. Abaixo, alguns de seus inúmeros poemas. Para aqueles que não conhecem a obra do poeta, sugiro o livro Mario Quintana de Bolso, da Editora L&PM. Abaixo, alguns de seus poemas:



O Mapa
Olho o mapa da cidade 
Como quem examinasse 
A anatomia de um corpo... 

(É nem que fosse o meu corpo!) 

Sinto uma dor infinita 
Das ruas de Porto Alegre 
Onde jamais passarei... 

Há tanta esquina esquisita, 
Tanta nuança de paredes, 
Há tanta moça bonita 
Nas ruas que não andei 
(E há uma rua encantada 
Que nem em sonhos sonhei...) 

Quando eu for, um dia desses, 
Poeira ou folha levada 
No vento da madrugada, 
Serei um pouco do nada 
Invisível, delicioso 

Que faz com que o teu ar 
Pareça mais um olhar, 
Suave mistério amoroso, 
Cidade de meu andar 
(Deste já tão longo andar!) 

E talvez de meu repouso...


Seiscentos e sessenta e seis
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ªfeira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente...

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil 
das horas. 


Canção para uma valsa lenta
Minha vida não foi um romance…
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa… de encanto… de medo…

Minha vida não foi um romance,
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance…
Pobre vida… passou sem enredo…
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance…
Ai de mim… Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso… de um gesto… um olhar…


Do amoroso esquecimento
Eu agora — que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?


Poeminho do Contra
Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!


Os Poemas
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…










Leia também: Antologia poética, de Mario Quintana

Literatura infantil: o que é importante na hora de escolhermos livros para as nossas crianças?

Literatura infantil: o que é importante na hora de escolhermos livros para as nossas crianças?

As crianças ocupam, em nossas vidas, um lugar de destaque. Vivemos e decidimos tudo em função do bem-estar delas. Mas a verdade é que nem sempre foi assim. Houve um tempo em que as crianças eram tratadas como adultos em miniatura, ou apenas criaturas que esperam para que chegue, um dia, a sua vez (tipo cresça e apareça). Quem tiver interesse em saber mais sobre isso, pode ler a obra do historiador Philippe Aries, entre outros que tratam do mesmo tema. O que nos interessa aqui, é a constatação de que, no que se refere à literatura, as coisas não eram diferentes. O que conhecemos hoje como literatura infantil é uma novidade, algo muito recente. No passado, as crianças aprendiam a ler nos livros dos adultos. 

Com a ascensão da burguesia, surgiu a necessidade de preparar as crianças burguesas para a nova realidade. Então, surgiram os primeiros livros escritos para crianças. No entanto, eram obras de cunho apenas pedagógico, cujo único objetivo era instruir e formar a criança. Obviamente, foi um longo caminho até que chegássemos ao ponto em que nos encontramos hoje, em que se produzem obras infantis pensando na criança como criança. Foram muitas as contribuições, desde La Fontaine, Charles Perrault, irmãos Grimm, Hans Cristian Andersen, até o nosso Monteiro Lobato, cuja obra, no Brasil, foi fundamental para a formação da nossa literatura infantil.

Hoje, felizmente, temos cada vez mais escolhas. Isso é, por um lado, excelente, por outro, nos confunde, pois ficamos, por vezes, sem saber o que escolher para os nossos pequenos. Penso que o mais importante na hora de fazermos as nossas escolhas, é decidirmos por obras libertadoras, que não pretendam doutrinar os nossos filhos, mas ensiná-los a pensar por si mesmos, que os encorajem a tornarem-se sujeitos ativos no mundo em que vivem.

Minha primeira sugestão é A operação do tio Onofre, de Tatiana Belinky. Gosto muito desse livro porque ele coloca a criança no centro da ação, como um sujeito ativo, pois é a nossa pequena protagonista que resolve a trama, de forma inteligente e muito eficiente (uma pequena heroína!). É o tipo do livro em que os pais terão prazer em ler junto com os filhos.


Literatura infantil: o que é importante na hora de escolhermos livros para as nossas crianças?

Gosto muito, também, de um livro chamado Menina bonita do laço de fita, de Ana Maria Machado. Estamos acostumados a histórias de princesas brancas como a neve, ou de cachos dourados, e por aí vai. Ou, por outro lado, textos que levantam a bandeira contra o racismo, o que é válido, mas nem sempre eficiente, haja vista a sociedade racista e preconceituosa em que vivemos. Ana Maria Machado segue uma lógica um pouco diferente. Ela coloca a pequena protagonista negra no mesmo lugar ocupado pelas princesas europeias, valorizando a beleza negra de forma natural, utilizando, para isso, metáforas belíssimas: os olhos eram duas azeitonas pretas, a pele uma pantera negra em dia de chuva. A menina, arrumada com esmero por sua mãe, parece uma princesa das terras da África, ou uma fada do Reino do Luar. Ao invés de bater de frente com os preconceituosos, a autora trabalha a autoestima das crianças negras, bem como apresenta uma imagem positiva delas para as demais crianças.


Literatura infantil: o que é importante na hora de escolhermos livros para as nossas crianças?

Há, ainda, não uma obra especificamente, mas uma coleção de livros infantis em braile da Editora Paulinas. Bem, creio que não há a necessidade de explicar a razão pela qual essa coleção é extremamente importante. 


Literatura infantil: o que é importante na hora de escolhermos livros para as nossas crianças?

Deixo abaixo, um vídeo do qual gosto muito, de uma conferência sobre literatura infantil, com Ana Maria Machado.



Literatura infantil: o que é importante na hora de escolhermos livros para as nossas crianças?

Adélia Prado: um outro olhar sobre o cotidiano

Adélia Prado: um outro olhar sobre o cotidiano


Nascida em Divinópolis, Minas Gerais, aos 13 dias do mês de dezembro de 1935, Adélia Luiza Prado Freitas, ou simplesmente Adélia Prado, é uma das mais expressivas poetisas brasileiras. Seus poemas são densos e profundos e, ao mesmo tempo suaves, abordando temas corriqueiros. Creio que o mais encantador na obra de Adélia Prado seja essa sua capacidade de lançar um outro olhar sobre o cotidiano, de nos fazer enxergar com estranhamento o que já se tornou corriqueiro. 

Adélia Prado é mestra naquilo que o formalista russo Oleksander Potebnia chamou de singularização. Não é à toa que a poetisa recebeu a indicação de ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade para que seu primeiro livro, Bagagem, fosse publicado, em 1976, pela Editora Imago. Drummond definia seus poemas como "fenomenais". Faço minhas as palavras do poeta! 

Para quem quiser conhecer melhor a autora, recomendo o livro Poesia Reunida, da Editora Record.
Adélia Prado: um outro olhar sobre o cotidiano


Abaixo, alguns de seus poemas:


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


O vestido

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça 
meu vestido estampado em fundo preto. 
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas 
à ponta de longas hastes delicadas. 
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito, meu vestido de amante. 
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido. 
É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada: eu estou no cinema e deixo que segurem a minha mão. 
De tempo e traça meu vestido me guarda.


Ensinamento

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. 
Não é. 
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: 
"Coitado, até essa hora no serviço pesado". 
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente. 
Não me falou em amor. 
Essa palavra de luxo.








Adélia Prado: um outro olhar sobre o cotidiano