Terra perdida


Embora façamos parte de uma sociedade, ou seja, vivamos em um mundo civilizado, ao nascermos, não passamos de criaturas selvagens. Aos poucos, aqueles que, a este mundo, chegaram antes de nós, vão se encarregando de nos preparar para viver em sociedade, vão nos transformando em indivíduos civilizados. Claro que viver em sociedade tem lá as suas vantagens. Afinal, somos seres sociáveis por natureza, pertencemos a uma espécie que vive (e sobrevive) em bandos. No entanto, apesar de não vivermos sós, somos educados de modo a não demonstrar nem falar sobre sentimentos com aqueles que nos cercam, pois tudo o que sentimos poderá ser (e muitas vezes será) usado contra nós. Abraços, beijos, palavras de carinho, enfim, todo o afeto guardado em nós é de responsabilidade nossa e, portanto, quase sempre em nós permanece.

Assim, seguimos carregando pesos desnecessários. Nos tornamos muralhas, precipícios sem pontes, passamos a fazer parte de uma multidão composta por seres solitários, estranhos uns aos outros. Até que um dia nos perguntamos: onde foi parar a nossa humanidade? Então, quando isso acontecer, perceberemos que já se faz demasiado tarde, pois já teremos virado uma ilha, isolados, ensimesmados, seguidores de alguns ensinamentos que a vida, por vezes, nos oferece. Ensinamentos cujo único objetivo é proteger-nos, criando uma carapaça que nos torne imunes às dores do mundo. Como se fosse possível! Como se mais cedo ou mais tarde não fosse descoberto um buraquinho, ainda que minúsculo em nossa armadura, tornando-nos vulneráveis novamente. Quanto mais grossa a casca que nos protege, maior é a dor que ultrapassa pela dita brecha, e mais despreparados estaremos para lidar com ela. Nascemos com um instinto natural para buscar o prazer e evitar a dor. Por isso, pensar em qualquer forma de sofrimento pode nos tornar medrosos em relação à vida. E, assim, esquecemos de que evitar sofrer pode ser sinônimo de evitar viver.

Há, no entanto, uma forma de crescer com tudo isso. Se pensarmos no orifício mínimo em nossa carapaça como uma espécie de buraco de minhoca que nos transportará do universo seguro da racionalidade que subjuga os sentimentos, para um outro em que possamos ser mais autênticos em relação às nossas emoções, poderemos utilizar as experiências de dor para resgatarmos a essência que ficou perdida em uma terra que há muito não visitamos, possivelmente, desde a infância. É uma terra distante e o caminho até ela é longo e íngreme. Poucos são capazes de chegar a esse lugar. Não há bússolas, não há guias, não há mapas. O único norte é o coração. 



Texto escrito originalmente no Scribe.


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